De coração

por , em 21/7/16

By Heart by Tiago Rodrigues image credit Magda Bizarro

Crédito da foto: Magda Bizarro

Queridas Senhoras,

não sei se sabem algum poema de cor. Inteiro é difícil mas de certeza que vos vêm à cabeça versos de diferentes poemas. A mim, ocorre-me logo, não sei porquê, Aquela triste e leda madrugada. A Alice, quando tinha três anos, sabia recitar de cor, completo, Descalça vai para a fonte / Leonor pela verdura. E julgo que também o Pescador da barca bela / onde vais pescar com ela.

Em jeito de prenda de aniversário antecipada, ganhei um bilhete para ver ontem a peça By Heart, estreada em 2013, agora em reposição no Glorioso Verão – Festival Shakespeare, no Teatro Nacional D. Maria II. A peça é do Tiago Rodrigues, ex-aluno do Liceu da Amadora, director artístico do Nacional desde 2014 (A-ma-do-ra! A-ma-do-ra! A-ma-do-ra!).

Saber by heart, ou seja de cor, é interiorizar. Decorar matéria para o teste não tem grande interesse mas porque é, então, tão bonito e reconfortante saber poemas, ou versos, de cor?

Há aquele livro, o Fahrenheit 451, do Ray Bardbury, que Truffaut adaptou ao cinema, que é um dos textos de apoio a esta peça. Não li o livro nem vi o filme mas o enredo é conhecido. Numa futurista sociedade distópica, os livros são proibidos e queimados. A resistência ao regime consiste num exército de soldados-livro, que memorizam as obras para que estas não se percam.

Em By Heart Tiago Rodrigues chama dez pessoas do público ao palco. Ao longo do espectáculo essas pessoas irão aprender um soneto de Shakespeare. Tão simples quanto isso. Ou talvez não. É difícil aprender um poema. Para saber um poema de cor, temos de o interiorizar ou mesmo ingerir e digerir ao longo dos anos. Aquela triste e leda madrugada.

By Heart é uma peça sobre teatro, livros, poesia, memória e uma avó transmontana que gostava de ler. No final da vida, já depois dos 90 e com pouca vista, pediu ao neto que lhe indicasse um único livro. Iria decorá-lo para quando já não fosse capaz de ler.

Decorar. Não é tão bonita a palavra, afinal?

Repitam comigo, agora:

Quando em meu mudo e doce pensamento
chamo à lembrança as coisas que passaram
choro o que em vão busquei e me sustento
gastando o tempo em penas que ficaram.
E afogo os olhos (pouco afins ao pranto)
por amigos que a morte em treva esconde
e choro a dor de amar cerrada há tanto
e a visão que se foi e não responde.
E então me enlutam lutos já passados,
me falam desventura e desventura,
lamentos tristemente lamentados.
Pago o que já paguei e com usura.
Mas basta em ti pensar, amigo, e assim
têm cura as perdas e as tristezas fim.

William Shakespeare, tradução de Vasco Graça Moura

(Nota: a peça está em cena até sábado, 23 de Julho. Julgo que para o último dia ainda há bilhetes).

Beijinhos a todas,

Céu

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Double date

por , em 26/6/16

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Queridas Senhoras,

a cultura americana é-nos tão familiar como pipocas no cinema. Podemos amar ou odiar mas crescemos com essas referências, com os filmes de cowboys, o Vietname, o sonho americano, the american way of life, Seinfeld, O Sexo e a Cidade, Nova Iorque de todas as formas e feitios.

Teatro americano dos anos sessenta, mesmo sem saber ao que vamos, soa a coisa familiar, conhecida. America, Suitamérica (encenação de Rui Mendes para o Teatro dos Aloés) justapõe duas peças dessa época, cada uma interpretada por um casal. A estrutura é muito simples, colocando homem e mulher à conversa numa prosaica sala de estar com sofás e TV. A premissa de cada história é também muito simples, tudo se desenrola à volta de um único acontecimento.

Na primeira história (Ana Bento e João de Brito interpretam) uma rapariga vai visitar o rapaz que atropelou mortalmente o namorado. Chega cheia de raiva, apelidando-o de assassino, mas progressivamente os dois vão-se aproximando a despeito do que os afasta. A rapariga sente-se perdida sem um namorado, diz que “uma mulher sozinha não pode fazer quase nada, acompanhada é diferente.” O rapaz, um estudante que descarrega carne de madrugada para pagar as contas, sente-se excluído quer pelos rudes companheiros de trabalho, quer pelos colegas de escola. Juntos, tentam encontrar pontos comuns ainda que não estejam sequer de acordo quanto à altura mais bela do dia. Ele diz que é o amanhecer quando passeia no cais depois de acartar com as peças de carne. Ela diz que que é o anoitecer, o único momento em que a paz está garantida.

Na segunda história temos um casal muito diferente (brilhantes Jorge Silva e Sofia de Portugal), marido e mulher confortavelmente instalados a assistir um filme na TV. O marido fica com um pé dormente, coisa que acontece a toda a gente, só que em vez de passar quando ele tenta repetidamente acordar o pé, a coisa alastra até à paralisia total. A mulher, que começa por reagir com indiferença, vai-se adaptando rapidamente assim que percebe a gravidade da situação. Está disposta a fazer tudo por ele e só lamenta que não tenham feito amor uma última vez. Tão felizes que eles eram e não sabiam.

America, Suitamérica termina hoje as apresentações nos Recreios da Amadora, seguindo depois para o Cineteatro D. João V, na Damaia ( 29 de Junho a 3 de Julho).

Beijinhos a todas,

Céu

 

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Queridas Senhoras,

Variações à beira de um Lago, a partir do original Duck Variations de David Mamet (em cena nos Recreios da Amadora até 10 de Abril, pelo Teatro dos Aloés) coloca dois homens de certa idade, dois reformados (presume-se), sentados num banco de jardim a trocar impressões sobre isto e aquilo, matando (ou vivendo) o tempo que resta.

Falam para não estar calados que é quem como quem diz, fazem conversa porque para estar silêncio já chega a eternidade. Falam porque é preciso ter um amigo (“todos precisamos de um amigo, todos precisamos de um amigo”, repete às tantas um dos homens incessantemente).

Ora eles falam do que está à vista, do lago, dos barcos e, sobretudo, dos patos. Há um bando de patos selvagens que sobrevoa o lago em direcção a melhores paragens e isso dá pano para mangas. A peça pode ter várias leituras, os patos são uma metáfora, claro, uma ponte na incomunicabilidade, etc. etc., mas para mim teve uma leitura extra, um prazer suplementar.

É o que eu ando a ler um livro sobre patos.

Desde o início do ano que todas as noites leio aos miúdos um capítulo do livro A Maravilhosa Viagem de Nils Holgersson através da Suécia de Selma Lagerlöf (1858-1940). Temos aprendido imenso sobre patos através da aventura de Nils, um menino transformado em gnomo que viaja nas costas de um ganso na companhia do bando de Akka de Kebnekaise, a pata-chefe. E temos aprendido imenso sobre a geografia e a cultura da Suécia, claro, e estamos a planear uma viagem a Estocolmo. De tudo isto ia falar-vos quando chegássemos ao fim do livro que é de facto uma grande empreitada que nos deve levar quatros meses ao todo. Mas não podia estar mais tempo calada.

Ontem, ao assistir à conversa sobre patos entre aquelas duas personagens cheias de ternura e esperança, só me apetecia intervir: “Sabem que os patos dormem com 50% do cérebro acordado?”. Aprendemos isto na quinta pedagógica, no nosso último passeio, e percebemos finalmente porque é que a Akka e o seu bando adormecem de imediato mas acordam ao mínimo ruído.

Enquanto houver livros e histórias e teatro não há incomunicabilidade que resista.

Beijinhos a todas,

Céu

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Dançar de olhos fechados

por , em 15/11/15

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Queridas Senhoras,

 

o Teatro dos Aloés tem em cena uma peça magnífica, com um texto maravilhoso, que recomendo vivamente. Danças a um Deus Pagão, do irlandês Brian Friel, está na Amadora e vai andar em digressão.

Um homem recorda o Verão de 1936 numa aldeia perdida nos confins da Irlanda. Ele era então uma criança e vivia com a sua mãe e tias. O ambiente é onírico, mágico, o rapaz faz de narrador presente e distante, relatando as memórias desse Verão decisivo em que tudo iria mudar e que, ao mesmo tempo, ficou cristalizado como um tempo de inocência e sortilégio.

As irmãs levam uma existência dura mas amenizada pelo convívio, pelas pequenas alegrias e, sobretudo, pela música que sai da telefonia, o “Marconi”, aquisição recente na casa que a todas enlouquece. O pai do rapaz é um pai ausente, que aparece a espaços, mas quando chega pega na mãe e dança com ela pelo jardim. Ela volta a ser menina e as irmãs, até a severa Kate, deixam-se contagiar pela leveza dos seus passos, pela beleza do par.

Há ainda um tio, o padre Jack, regressado de África após 25 anos de ausência. Vem esquecido de como se vive ali, o vocabulário falha-lhe e a sua religiosidade está impregnada dos rituais pagãos africanos, o que muito perturba Kate.

O texto é prodigioso, os actores estão em estado de graça e toda a encenação, a iluminação, a música, acentuam a ternura desse Verão passado, perdido, eterno.

Como as personagens, saímos da sala de olhos semicerrados (os meus vinham vermelhos do choro), a trautear velhas canções, abanando suavemente o corpo ao ritmo de uma telefonia distante.

Beijinhos a todas,

 
Céu

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Num teatro sempre pop

por , em 13/9/15

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Queridas Senhoras,

o que me fez estar hoje uma hora e meia em pé, numa fila, debaixo de sol, não foi bem conseguir bilhetes grátis para o teatro. (Na verdade não estava à espera de encontrar uma fila que dava a volta ao Teatro Nacional D. Maria II. Mesmo tratando-se do evento Entrada Livre, amplamente anunciado no Facebook e na imprensa). Fui na tentativa de conseguir bilhetes para uma das três tragédias gregas (Ifigénia, Agamémnon e Electra), fiquei por teimosia (mesmo depois de advertirem que os bilhetes já não deveriam chegar a tanto), por vontade de fazer parte da festa.

Escusado será dizer que a lotação esgotou rapidamente para todas as sessões do dia. Consegui os meus dois bilhetes e  chamei a minha mãe para vermos juntas uma versão livre da Electra.

Sala a abarrotar para assistir a uma enérgica interpretação do texto clássico, rescrito e encenado por Tiago Rodrigues, numa paródia aos próprios elementos e à estrutura da tragédia.

É refrescante ver tanta agitação à volta do Teatro Nacional, resmas de gente de todas as idades a querer ver teatro. As peças vão agora continuar em cena pelo que quem viu uma, duas ou nenhuma das três tragédias pode completar o ciclo. (Se adquirirem bilhete para as três, sai a oito euros cada espectáculo – é o Trágico desconto).

Beijinhos a todas,

Céu

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Queridas Senhoras,

a Paula Silva tem na gaveta a ideia para uma peça de teatro que tem a ver com a interacção entre desconhecidos num determinado espaço. Obviamente, não vou revelar detalhes, seria uma inconfidência imperdoável. Mas a premissa de colocar desconhecidos à conversa é sedutora e cheia de possibilidades.

A peça Escrever, Falar (pelo Teatro dos Aloés, texto de Jacinto Lucas Pires,  em cena nos Recreios da Amadora, de quarta a sábado às 21h30, domingo, às 16h, até 26 de Julho) coloca duas personagens (dois homens) em palco num cenário absolutamente vazio. O que fazem esses dois homens? O que dizem um ao outro? Falam de si? Olham-se nos olhos?

É difícil sustentar o olhar de alguém. Quando por acaso cruzamos o olhar com alguém na rua, nos transportes, no trânsito, o instinto é desviar os olhos, fingirmo-nos de repente interessados noutra coisa. Os dois homens serão capazes de se olhar, de se aproximar? De se tocar? Se um tropeçar e cair, o outro ajuda-o a levantar-se?

Se falarem, irão além da conversa de circunstância? As frases feitas sustentam muita da nossa comunicação diária e são a salvação de situações incómodas. Evitamos o silêncio e preenchemo-lo com palavras inócuas, pré-fabricadas. E o calor que está hoje? Estava-se bem é na praia. Só se for dentro de água.

Dois homens encontram-se e ensaiam tentativas de uma conversa, entre banalidades e confissões. São possibilidades, encenações, projecções.

Não se sabe se chegam a trocar uma palavra.

Beijinhos a todas,

Céu

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Questionário ‘Ter 40′