Lenha para a fogueira

por , em 15/9/16

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Queridas Senhoras,

hoje passámos a manhã na ‘Escola Primária’ (é engraçado como a expressão se recusa a desaparecer). Foi o primeiro dia de aulas do Francisco, que continua a ver o seu Jardim de Infância através das grades, mas que agora sente outro tipo de responsabilidade. Não sei onde é que ele foi buscar as preocupações que tem manifestado nos últimos tempos.

- E se tiver má nota?

- E se eu não tiver espaço na cabeça para tudo?

- E se os outros miúdos gozarem comigo por eu ser pequenino?

- Se eu tiver má nota no primeiro dia a culpa não é minha, pois não, ainda não tive tempo para aprender…

Aos poucos, tenho tentado desconstruir estes monstros assustadores, relativizando e simplificando, mas sempre desejosa de que comece o raio da escola de uma vez por todas, porque tenho a certeza de que mal ele perceba o que é que ali se vai passar vai relaxar. Não sei de onde vêm estas assombrações – sei que não nasceram nem em minha casa nem em casa do pai, isso é certo. São coisas que ele ouve por aí. Felizmente, fala delas connosco. Espero que seja sempre assim.

Mas cá entre nós, enquanto eu o tento tranquilizar, confesso que lido com os meus próprios monstros. A minha ‘primária’ correspondeu a um período muito conturbado da minha infância e, provavelmente por isso, tenho muito poucas memórias claras desse tempo, meia-dúzia de pormenores, apenas. Por isso, cá entre nós, confesso que deposito alguma esperança redentora no que aí vem. Que eu possa restaurar um pouco a minha infância através do Francisco. Será pedir demais? Provavelmente.

Para ele, desejo muita amizade e muita curiosidade. E a coisa dá-se.

Abraço a todas,

Marta

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Notícias e tangerinas

por , em 21/2/15

compassionatecuisine

Foto de compassionatecuisineblog.com

Queridas Senhoras,

esta semana foi a semana das tangerinas. Na quinta-feira, a B. trazia no carro dois sacos cheios delas para distribuir. Que fora o vento dos últimos dias que as deitara todas ao chão, lá na Pampilhosa. Eu fiquei com um saco, a J. ficou com o outro, a M. declinou a oferta porque trouxe tangerinas da casa de família, na Carapinheira. Quando cheguei a casa, o Gonçalo disse que já tinha comido tangerinas nesse dia (alguém levara uma boa dose delas para o escritório de Aveiro) e que, quando estivera em Mira, tinham-lhe dito o mesmo do vento e da necessidade de partilhar as tangeridas tombadas, antes que se estragassem.

Antes que as minhas se estragassem, fui deixar metade a casa da minha vizinha M.

E ontem, quando li o post da Céu sobre o negócio das notícias, pensei que gostaria, sim, senhora, de reflectir e escrever alguma coisa sobre o assunto. Mas, ora, e a minha ideia de vos falar das tangerinas? Hoje acho que, se vamos falar de propagação, cabem as tangerinas e as notícias no mesmo saco. Na primeira história, foi um vendaval e a proximidade do campo à cidade de Coimbra que fez com que andássemos todos a falar de tangerinas.

Na segunda história, são ‘shots de e-mail marketing para bases de dados’ que determinam aquilo de que andamos todos a falar. Uma grande percentagem de nós, autoras deste blog, trabalha ou trabalhou em media e sabe bem como é que estas coisas funcionam. É uma espécie de corrida em que já não interessa quem vai à frente; o que interessa é não ficar de fora. O assunto pegou? Peguemos no assunto.

Para mim, há dois lados desta questão. Para mim, digamos, como consumidora de informação. Por um lado, assusta-me o afunilamento e procuro fugir dele o mais possível. Selecciono cada vez mais as fontes de informação a que recorro, procurando diversificá-las, escapar à tirania da actualidade. Porque eu gosto de saber, de aprender, de conhecer, de descobrir. E a maior parte do prazer de tudo isso está no processo. Gosto de ir à procura de mais sobre isto ou aquilo, e de descobrir (ou inventar) ligações. É um dos meus passatempos preferidos. Mas tem que dar trabalho e tem que gerar surpresa, senão não tem graça nenhuma.

Por outro lado, naqueles assuntos que é impossível ignorar, lembro-me de uma citação do escritor Harlan Ellison muito usada mas muito pouco posta em prática: ’You are not entitled to your opinion. You are entitled to your informed opinion. No one is entitled to be ignorant.’ E é com esta dose de rudeza que me mantenho calada sobre muitos dos assuntos que inflamam os media e as redes sociais dia após dia.

A diferença entre as tangerinas e as notícias (ou as opiniões) é que, das primeiras, quantas mais, melhor.

Bom fim-de-semana!

Marta

PS: Quando eu era novinha, dizia que queria ser jornalista para ser a primeira a saber tudo. E o meu então namorado respondia, ‘mas não são os jornalistas os primeiros a saber tudo. Eles só sabem aquilo que interessa a alguém que eles saibam.’ Estávamos nos anos 1990.

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Queridas Senhoras,

quando o criador da banda desenhada Calvin and Hobbes fala, é de se ouvir – até porque é raríssimo. Esta curta bd foi lançada já há alguns meses, tinha-a aqui guardada para não me esquecer dela. Pois bem, caso vos tenha escapado:
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Beijinhos,

Marta

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BoloF

Bolo e fotos de Mercearia do Açúcar

O meu filho já tem cinco anos. Ainda estranho o som, cinco, não sei porquê mas para mim foi um marco. De repente, uma mão cheia de anos e já não há bebé cá em casa. Há um rapaz enérgico e apaixonado por tudo o que seja ninja e lutas de super-heróis contra vilões, mas com paciência para fazer puzzles de 200 peças; viciado em jogos de computador (restringidos a meia-hora por dia), mas que não passa sem que eu lhe leia uma história. Muito introspectivo e sensível, mas também com uma capacidade enorme de se divertir.

Podia passar horas a falar das coisas mais adoráveis nele e das coisas que mais nos preocupam. Mas decidi destacar duas, apenas, e poupar-vos à tagarelice de mamã.

Uma delas é a linguagem. Nunca pensei que pudesse ser tão natural esta transmissão, até porque nós não estamos constantemente a ensinar-lhe palavras novas, nada disso. O que é um facto é que ele já tem um vocabulário que faria inveja a muitos adultos; e mais: tem curiosidade, pergunta sempre qual o significado das palavras que ouve e que não conhece, e brinca com as palavras, o que me derrete completamente.

Vou dar-vos exemplos (sim, inchadinha de orgulho, admito):

Um dia destes mostrei-lhe o que era pó de talco.
- Parece água! Quando cai na minha pele, sabe a água!
Uma pausa, e continua:
- Não se diz ‘sabe’, pois não? Não exactamente… Como é que se diz, mãe, explica-me!

Gosta de inventar verbos. ‘Pequenalmoçar’ foi dos primeiros e acho que já entrou para o léxico da família. «Posso autoclismar?», perguntou-me, há poucos dias, enquanto eu estava no duche. E ontem, depois de terminar o prato principal do almoço, à pergunta «o que queres agora?», respondeu, «quero frutar». Nós rimos imenso e ele adora fazer-nos rir, por isso tudo me leva a crer que a invenção de verbos continuará.

Bem, outra das facetas adoráveis (e, claro, preocupantes) nele é o lado existencial. Faz parte, está na idade disso, mas ainda assim custa – a  mim custa-me porque não tenho respostas na ponta da língua, também eu ainda ando à procura delas.

Hoje, no caminho para a escola, eu disse que parecia que a chuva não iria parar tão cedo. Ao que ele responde:
- Pois, a chuva está infinita.
Segue-se um silêncio, durante o qual eu penso, pronto, já me vai perguntar se nós também somos infinitos. Eis quando:
- Nós vamos todos morrer, não vamos? Eu espero não morrer já, ainda agora nasci!

Isto de ter cinco anos não é para meninos! Beijinhos a todas e boa semana.

Marta

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Cartas para mim mesma

por , em 1/2/15

BorchQuadro de Gerard ter Borch

«Journaling, I believe, is a practice that teaches us better than any other the elusive art of solitude — how to be present with our own selves, bear witness to our experience, and fully inhabit our inner lives.» Maria Popova

A falta de tempo aflige-me. Decidi, não sei dizer exactamente quando, combatê-la com lentidão. Ler mais devagar, escrever mais devagar, pensar mais devagar. Estar mais devagar. Menos variedade, mais intenção.

Nunca tinha pensado nisto assim, com esta terminologia, até hoje. Até ter decidido escrever aqui (já não o faço há demasiado tempo) sobre a minha decisão de começar a escrever um diário.

Escrevo para pensar melhor, não me caso de repeti-lo. Agora escrevo para pensar melhor sobre mim. Não será material para blogues, mas acredito que, ocasionalmente, das páginas do diário sobressaia uma ideia cuja reflexão precise de ser partilhada. E essas, sim, chegarão até aqui.

Alguma de vocês escreve um diário? E que tal pensarem nisso? Um luxo, a meu ver, este de escrevermos cartas a nós mesmos. Deixámos convencer-nos de que já não estaria ao nosso alcance, tal luxo. E, afinal, é tão simples.

Beijinhos,

Marta

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http://feelafraidcomic.com/57.phpQueridas Senhoras,

dizia Picasso que demorara a vida inteira a aprender a desenhar como as crianças (ou a reaprender a desenhar). Desaprendemos tanto com o crescimento. Desde que sou mãe tenho esta evidência à minha frente todos os dias. Quem me dera que o Francisco conseguisse não desaprender demasiado.

No vazio espiritual que se vive cá em casa, as perguntas metafísicas são de resposta difícil. Noutro dia, o Francisco brincava com a sua grande amiga Ana (de 3 anos) e a conversa era esta:

Ana: Vou espetar a espada no Barrica e ele vai morrer!
F: Olha que a minha mãe não gosta nada de morrer…
Ana: Não é a tua mãe, é o Barrica!
F: Ah!

Bem, mas ontem, enquanto o pai fazia a barba, o Francisco comentava:

F: Queres ficar mais parecido comigo, é?
Pai: Tu é que és parecido comigo, eu é que te fiz! Quando eu era pequenino, era mesmo assim igual a ti.
F: E quando tu eras pequenino eu ainda estava morrido?

A mim, levou-me anos e anos chegar a esta ideia mais ou menos apaziguadora, à falta de outras crenças, de que voltamos para o lugar de onde viemos. Ou se calhar sabia-o e desaprendi-o.

Não consigo deixar de me deslumbrar com a clarividência dos miúdos.

Beijinhos a todas,

Marta

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Questionário ‘Ter 40′