Encenações

por , em 11/9/16

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Queridas Senhoras,

na sexta-feira, na Festa do Livro da Amadora, os escritores Gonçalo M. Tavares e João Tordo, moderados pelo jornalista / colunista Daniel Oliveira, falaram sobre “Literatura na era dos posts e dos hashtags”.

Para mim não há grande conflito entre redes sociais, livros, jornais e outros meios. Continuo a ler livros e jornais e leio muito do que se produz nas redes sociais. Há gente que comecei acompanhar através do facebook, que escreve com graça e inteligência, cujos textos já fazem parte das minhas leituras diárias. Há muito lixo também, claro, tal como na literatura, na TV, no cinema. Faço as minhas escolhas, pessoalmente e através de alguns mediadores.

Hoje somos todos “produtores de conteúdos” e construímos diariamente, como agora se diz, as nossas narrativas. O storytelling, tão falado no marketing e na publicidade, é no fundo a técnica que aplicamos nas representações que fazemos das nossas vidas, interesses, comportamentos e acções. Ontem passei quase o dia inteiro com a minha irmã, em actividades familiares e de lazer. Ela foi documentando alguns momentos no facebook, instagram, etc., através das suas técnicas narrativas. Como não tenho internet no telemóvel, não estou sempre ligada e ao final do dia pensei “tenho de ir ao facebook ver como foi o meu dia.”

Existe a realidade do que vivemos, o que pensamos e sentimos quando estamos a vivê-la, as memórias que criamos depois e as narrativas que construímos dessa realidade para as redes sociais. Não sei se isto é muito diferente do que acontecia antes com os álbuns de fotografias ou com os diários, por exemplo. Sei que é mais instantâneo e provavelmente mais encenado.

Como sou do século passado, ainda não recorro a essas técnicas imediatas, vejo e relato tudo em diferido. E por enquanto prefiro assim. Quanto mais mediação existir entre mim e aquilo que estou a viver, mais sinto que estou condicionada na vivência e na absorção do que se passa. Por exemplo, não é indiferente ver um filme ou uma peça sozinha ou acompanhada. O simples facto de estar com alguém altera a minha percepção. Quanto mais mediação existir entre mim e o objecto, mais alterada será a minha experiência. Imagine-se a situação de estar a ler um livro e a partilhar essa leitura nas redes sociais. Pode-se fazer isso com um concerto, um espectáculo, um debate mas com um livro não funciona. A experiência da leitura permanece, por isso, como uma das mais íntimas e pessoais.

Nem toda a gente está nas redes sociais e há até um certo charme em estar fora delas, aquele charme de não fazer o que todos fazem (como não conduzir, por exemplo). Três exemplos significativos: Gonçalo M. Tavares, Pedro Mexia e Ricardo Araújo Pereira não têm facebook o que, convenhamos, lhes confere uma certa aura. É um misto de superioridade intelectual, desprendimento e um desconhecimento elegante dessas ferramentas de massas.

Não lhes levo a mal não estarem presentes, nem sei se teria o mesmo prazer em saber a todo o momento a opinião do PM ou as piadas do RAP, como tenho ao ler a crónica semanal de um e de outro ou, melhor ainda, em participar em algum evento público em que eles intervenham.

Percebo que quem vive da escrita, seja literatura, seja opinião, tem de se resguardar de um meio onde proliferam os conteúdos (aparentemente) gratuitos. Por outro lado, o facto de haver tanta gente a escrever com graça e acerto faz, de algum modo, elevar a fasquia de quem é pago para preencher uma coluna nos meios tradicionais.

Não tenho uma conclusão para este texto. E agora? Talvez não tenha pensado bem na narrativa que queria aqui apresentar! Mas também não me pagam para isto…!

Beijinhos a todas,

Céu

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