Ter a palavra

por , em 1/7/16

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Queridas Senhoras,

nos últimos tempos alastrou pela cidade um surto de poesia. A uma segunda ou uma terça-feira, por exemplo, dias tão cinzentos, pessoas reúnem-se em bares, cafés, livrarias, associações culturais para uma actividade quase clandestina, subversiva. É que na minha visão romantizada estas noites esconsas são o exacto oposto de uma rotina desinteressante e mecanizada. Na prática, quem é que tem tempo, paciência, energia, disponibilidade mental e emocional para a poesia numa segunda-feira à noite?

O mesmo poderá dizer-se de uma noite de teatro, cinema, ópera ou bailado. Mas a poesia, por dispor apenas da palavra, tem, ao mesmo tempo, uma fragilidade e uma força particulares. No caso da poesia dita na rua, desprotegida, exposta aos elementos, isto sente-se de forma muito intensa. Ficamos abalados. Eu cá fico.

Ontem, ao final da tarde, assisti a um dos eventos de abertura do Festival Silêncio  (30 de Junho a 3 de Julho) chamado A Poesia das Fronteiras. Várias pessoas que costumam participar nos encontros dos Poetas do Povo e outros, disseram poemas seus e alheios, num palco da Rua Nova do Carvalho, ao Cais do Sodré, sob o arco da Rua do Alecrim.

Uma voz que irrompe no silêncio ou no ruído citadino às sete da tarde, quando a cidade fervilha de turistas, adeptos de futebol, gente cansada, distraída ou desistente, quando essa voz – profunda ou cristalina, poderosa ou tímida, zangada ou risonha – chega até nós, sentimos as palavras directamente na pele. Eu cá sinto.

É curioso como se procura cativar os públicos com espectáculos e performances cada vez mais elaborados, cheios de efeitos, videomappings e mais não sei o quê. Mas, de repente, há um homem ou uma mulher (ou uma criança) a dizer um poema numa praça, num jardim, numa avenida, despido de todos os artifícios, sem quaisquer adereços, sem apoio, sem rede, sem explicação. É avassalador.

E assim se desafia “o modo funcionário de viver” do O’ Neill que também esteve lá ontem e fez companhia ao Drummond de Andrade.

(ouvido na rua)

A Flor e a Náusea

Preso à minha classe e a algumas roupas, vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias, espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.

Vomitar este tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

Carlos Drummond de Andrade

 

 

Beijinhos a todas,

 

Céu

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MValeGato

Queridas Senhoras,

precisei recentemente de um texto sobre comboios. De um dia para o outro, a Marta, aliás, a Costureira de Palavras,  resolveu-me o problema (como sempre, o resultado é mais feliz do que a encomenda) com  este texto culto e sensível.

Como hoje é o aniversário dela, lembrei-me de retribuir com um poema de Margarida Vale de Gato que fala de comboios e barcos. (“A melhor estreia de uma poeta portuguesa nas últimas décadas”, escreveu o Pedro Mexia em 2010).

Parabéns, querida Marta!

 

Intercidades

galopamos pelas costas dos montes no interior
da terra a comer eucaliptos a comer os entulhos de feno
a cuspir o vento a cuspir o tempo a cuspir o tempo
o tempo que os comboios do sentido contrário engolem
do sentido contrário roubam-nos o tempo meu amor
preciso de ti que vens voando
até mim
mas voas à vela sobre o mar
e tens espaço asas por isso vogas à deriva enquanto eu
vou rastejando ao teu encontro sobre os carris faiscando
ocasionalmente e escrevo para ti meu amor
a enganar a tua ausência a claustrofobia de cortinas
cor de mostarda tu caminhas sobre a água e agora
eu sei
as palavras valem menos do que os barcos
preciso de ti meu amor nesta solidão neste desamparo
de cortinas espessas que impedem o sol que me impedem
de voar e ainda assim do outro lado
o céu exibe nuvens pequeninas carneirinhos a trotar
a trotar sobre searas de aveia e trigais aqui não há
comemos eucaliptos eucaliptos e igrejas caiadas
debruçadas sobre os apeadeiros igrejas caiadas meu amor
eu fumo um cigarro entre duas paragens leio
o Lobo Antunes e penso as pessoas são tristes as
as pessoas são tão tristes as pessoas são patéticas meu
amor ainda bem que tu me escondes do mundo me escondes
dos sorrisos condescendentes do mundo da comiseração
do mundo
à noite no teu corpo meu amor eu
também sou um barco sentada sobre o teu ventre
sou um mastro
preciso de ti meu amor estou cansada dói-me
em volta dos olhos tenho vontade de chorar mesmo assim
desejo-te mas antes antes de me tocares de dizeres quero-te
meu amor hás-de deixar-me dormir cem anos
depois de cem anos voltaremos a ser barcos
eu estou só
Portugal nunca mais acaba comemos eucaliptos
eucaliptos intermináveis longos e verdes
comemos eucaliptos entremeados de arbustos
comemos eucaliptos a dor da tua ausência meu amor
comemos este calor e os caminhos de ferro e a angústia
a deflagrar combustão no livro do Lobo Antunes
comemos eucaliptos e Portugal nunca mais acaba Portugal
é enorme eu preciso de ti e em sentido contrário roubam-nos
o tempo roubam-nos o tempo meu amor tempo
o tempo para sermos barcos e atravessar paredes dentro dos quartos
meu amor para sermos barcos à noite à noite
a soprar docemente sobre as velas acesas
barcos.

In Mulher ao Mar, Edição Mariposa Azual, 2010, Lisboa

 

Beijinhos a todas,

Céu

 

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A viagem

por , em 23/5/15

041.tifEdward Hopper, Approaching a City, 1946

Queridas Senhoras,

é uma da manhã. Há exactamente 42 anos, nasci para o mundo, numa maternidade que já não existe, de uma mãe que já não existe. Os aniversários são-me sempre agridoces, mas ainda assim nunca me esqueço de que há que celebrar estar viva.

Hoje, enquanto comprava um fogão, uma cama e um ferro de engomar, entoava silenciosamente um trecho de um poema de David Whyte: You are not leaving./ Even as the light fades quickly now,/ you are arriving. E a seguir o meu cérebro fazia, claro, uma ligação imediata: É sempre sem aviso que chegas. Fui agora buscar o livro de José Jorge Letria (O Desencantador de Serpentes) que inclui um poema que me marcou desde que o li pela primeira vez, em 1993, porque aquela sou eu:

Apesar da Viagem

É sempre sem aviso que chegas. Telefonas-me
do café da esquina para dizeres que vais
subir. Trazes um disco para ouvirmos
juntos. Conheço os teus gosto irregulares,
as tuas referências musicais, os adjectivos
com que fustigas tudo o que te desagrada.
Dá-me trabalho descobrir de onde vens.
Há sempre uma cidade, um estúpido drama
caseiro por detrás de cada uma das tuas
chegadas. A porta abre-se e tu entras
e vens desarmada de argumentos, com a voz
enrouquecida do tabaco e da insónia.
Podíamos consumir as palavras todas
de repente ou sentarmo-nos numa esplanada
à espera de que o sol nos caísse na mesa.
Mas ficamos assim presos à rotação do disco,
enquanto as formigas tomam de assalto
o açúcar na borda do pires e o homem da luz
enfia debaixo da porta a conta do mês.
Como estás bonita apesar da viagem.

42 anos é uma bela idade para uma chegada. E como estou bonita apesar da viagem.

Beijinhos muito grandes a todas,

Marta

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Love After Love

The time will come
when, with elation,
you will greet yourself arriving
at your own door, in your own mirror,
and each will smile at the other’s welcome,
and say, sit here. Eat.
You will love again the stranger who was your self.
Give wine. Give bread. Give back your heart
to itself, to the stranger who has loved you

all your life, whom you ignored
for another, who knows you by heart.
Take down the love letters from the bookshelf,

the photographs, the desperate notes,
peel your own image from the mirror.
Sit. Feast on your life.

Derek Walcott

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DN

Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Que o tempo que nos deste seja um novo
Recomeço de esperança e de justiça.
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Erguei o nosso ser à transparência
Para podermos ler melhor a vida
Para entendermos vosso mandamento
Para que venha a nós o vosso reino
Dai-nos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Fazei Senhor que a paz seja de todos
Dai-nos a paz que nasce da verdade
Dai-nos a paz que nasce da justiça
Dai-nos a paz chamada liberdade
Dai-nos Senhor paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Sophia de Mello Breyner Andresen
Dual (1972)

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Aqui não há horizontes

por , em 30/11/14

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Há um grande vento entre os montes,
E os vales têm alegria.
Aqui não há horizontes,
Mas só os cimos e o dia.
Aqui se esquece o passado,
Até o só imaginado.

Aqui, porque toda a gente
Está do outro lado das serras,
E não há rio que intente
Ligar-nos a outras terras -
Aqui calmos aguardamos
O nada que já esperamos.

Sempre a vontade nos falha
Sempre o desejo nos sobra.
A consciência é uma batalha,
A fantasia é uma obra
Absurda em trezentos tomos.
E a vida é o que não somos.

28 – 10 – 1930
Fernando Pessoa
in Poesia 1918-1930, Assírio & Alvim

Queridas Senhoras,

quando saio de Coimbra, para a beira-mar ou para terras altas, respiro fundo. ‘Aqui não há horizontes’. Foi das coisas a que mais me custou habituar (e, na verdade, acho que nunca me habituei, conformei-me).

Já tinha colocado este quadro de Hopper noutro post (o do meu questionário dos 40). Porque é assim que me vejo. Sempre junto à janela, pela luz, não pela vista.

Noutro dia dizia ao Francisco que o nosso ‘bairro’ se chama Vale das Flores, ao que ele respondeu: «devia chamar-se Vale dos Prédios!» Ontem fomos passear até à serra, ao Parque Biológico, e mal saímos da cidade o miúdo declara: ‘Se comprarmos outra casa, quero que seja aqui.’ Pronto, está visto, tenho um ruralzinho.

A conversa dos ‘vales’ lembrou-me de que, na minha outra vida, morei numa Travessa Vale do Rio. Mas, ao contrário do Vale das Flores, não estava no fundo de uma cova. Até tinha que descer uma grande escadaria para chegar à praia (o luxo que era, ir a pé num instantinho até à beira-mar.) Ali, quando me faltava o ar, tinha o horizonte mesmo à mão.

Então ontem, andávamos nós a explorar a serra, eu a respirar bem fundo, e toca o telemóvel. O meu telemóvel quase nunca toca ao fim-de-semana. Era a Sandra. Disse-me de uns planos para o maravilhoso novo projecto da Andreia e do pai, em Cascais, combinámos umas trocas de informações e depois, a rematar: «Olha, e vem morar para Cascais!» Ao que eu respondo, «está bem!»

A fantasia é uma obra | Absurda em trezentos tomos.’

Beijinhos a todas,

Marta

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Questionário ‘Ter 40′