Que força é essa

por , em 24/4/16

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Queridas Senhoras,

não me ocorre melhor forma de celebrar o 25 de Abril do que num concerto do Sérgio Godinho na Amadora. Ontem, nos Recreios, o espectador mais novo tinha 3 anos (o meu sobrinho) e a mais velha já devia ter passado os 90. A família estava toda reunida. Julgo que é a isto que se chama transversal.

O desinteresse e a alienação podem estar instalados mas não está tudo perdido. O brilhozinho dos olhos não vem só do novo iPhone ou da vitória do clube do coração. A canção de intervenção ainda causa arrepios. A mim, causa. Se a música de protesto está ultrapassada, então eu também estou.

Paz. Pão. Habitação. Saúde. Educação.

A paz está sob ameaça; o pão está caro e tem sal a mais; há casas vazias e muitos a viver na rua; a saúde é para quem a pode pagar; e a educação, bem, os licenciados e mestres a trabalhar em call centers são o novo paradigma. Mas já têm um sindicato.

O primeiro dia do resto da minha vida já lá vai mas os meus filhos têm a deles inteirinha pela frente. Garantias não têm nenhumas. Mas vão a manifestações desde pequeninos e sabem a história do 25 de Abril de trás para a frente. Os pais das crianças de hoje já nasceram depois do 25 de Abril, a história já é contada em terceira mão. Convém continuar a contá-la. E a cantar.

Quando se juntam todos, netos, pais e avós, isso tem um significado. Cantam a uma só voz:

A Liberdade está a passar por aqui.

Beijinhos a todas!

Céu

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Man Ray, Woman With Long Hair, 1929

Queridas Senhoras,

estão todas convidadas para uma magnífica festa no pátio das miúdas loiras. Devo dizer-vos que eu ando a espreitar pelo buraco da fechadura há uns 16 anos, por isso sintam-se devidamente privilegiadas por terem a porta escancarada com tamanha facilidade.

Foi há 16 anos, mais coisa, menos coisa, que me apaixonei pelo pátio das miúdas loiras. Foi o Jeff Buckley que mo apresentou, reparem, é natural que me tenha tocado. Para mim, o pátio era, então, um lugar de despedida sob o sol, bem no meio de um álbum póstumo, Sketches for My Sweetheart the Drunk (1998), depois de o Mississipi se ter apropriado tão indevidamente da vida do mais belo dos cantores. Tanto que eu cantei este pátio.

No final do ano passado descobri o Micah P. Hinson. Decorem este nome (não se preocupem se não conseguirem, eu voltarei a ele muitas mais vezes, seguramente). Até recebi um cd dele, já não recebia um cd há tanto tempo que me apetece emoldurá-lo.

Através do Spotify fui conhecendo os seus trabalhos anteriores e percebi que participou no álbum Dream Brother: The Songs of Tim and Jeff Buckley (2006). Com que canção, perguntam vocês? Com o pátio, pois claro:

Reparem: eu ouço muita música e depois ouço a minha música. Já não admitia novos membros da galeria dos ‘meus’ há longuíssimos tempos. E, assim do nada, o Micah dá-me esta prova de que estava certa em relação a ele. Estas coisas emocionam-me, não consigo evitá-lo.

Os dados estavam lançados: eu tinha que saber tudo o que é possível saber-se sobre esta canção.

E eis que chego a Inger Lorre.

Esta é a história: Inger foi namorada de Jeff Buckley. Quando Audrey Clark e Lori Kramer compuseram esta canção em homenagem a uma amiga que se havia suicidado, Inger pediu-lhes boleia e acrescentou o seguinte trecho à letra original:

It’s in your heart
It’s in your art, your beauty
Even in this world of lies
There’s purity
You’ve got innocence
In your eyes
Even in this world of lies

You’re still hopeful
Very sexy, okay, okay

O trecho era, como decerto já adivinharam, dedicado ao rapaz Buckley. Mas ele, apesar de ter interpretado maravilhosamente a canção, nunca chegou a saber disso.

Bem-vindas ao pátio, Senhoras. Let the party begin!

Beijos,

Marta, a investigadora solene das coisas fúteis
(que bem que me fica esta assinatura de Álvaro de Campos)

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«Laissez lire, et laissez danser; ces deux amusements ne feront jamais de mal au monde.» Voltaire

Queridas Senhoras,

no sábado passado fui a Cascais. Isto, só por si, é motivo mais do que suficiente para escrever um post. As saudades são cada vez mais intensas, onze anos depois de me ter mudado para Coimbra, e a imagem de um regresso parece estar a assumir contornos definidos.

Dizia eu que fui a Cascais. O pretexto foi um concerto na belíssima oficina/livraria da Andreia, a Arte no Livro, seguido de um jantar entre amigos de toda a vida. Também lá estava a nossa Susana. Cascais é uma terra muito bonita, não há dúvida, mas são as pessoas que fazem dela o meu lugar.

Cheguei mesmo em cima da hora, já estava a sala cheia e os músicos a postos. As músicas dos The Loafing Heroes são envolventes e intrigantes, com camadas de instrumentos e de palavras magistralmente orquestradas pelo líder, Bartholomew Ryan, irlandês, que veio para Portugal aprofundar os seus conhecimentos em Filosofia da Linguagem (actualmente desenvolve o seu trabalho num pós-doutoramento, na Nova, dedicado a Kierkegaard e Fernando Pessoa). Também na Nova estudou João Tordo, o escritor, que ali, naquele palco, toca contrabaixo. E guitarra, um pouco, numa canção chamada Javali, porque Ryan se deixou encantar pela sonoridade da palavra – e eu deduzo que a tenha descoberto através do malogrado javali do livro Biografia Involuntária dos Amantes, de João Tordo.
Giulia Gallina, italiana, toca concertina e complementa, com doçura, a voz de Ryan. Há ainda violinos, percussão e outras participações, que oscilam de acordo com a capacidade de estes loafers se conseguirem encontrar no mesmo ponto do mundo.

Bem, eu nunca tinha lido João Tordo. Estou agora a descobrir O Luto de Elias Gro, porque se passa num farol, numa ilha remota e escassamente habitada. E, de seguida, lerei a Biografia Involuntária dos Amantes, por causa do javali e de uma referência a um quadro do Hopper. Sobre tudo isto falarei a seu tempo.

Por hoje, quero apenas dizer-vos que é o Dia Mundial da Música e os The Loafing Heroes estão a promover uma acção de crowdfunding para a gravação do seu próximo álbum. Já não falta muito tempo (nem muito dinheiro), por isso convido-vos a contribuir.

Por entre traduções de Albert Caeiro e referências a W.H. Auden, ainda tive direito a uma versão dos Cure. Como se fosse só para mim.

Beijos,

Marta

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Lady sings the blues

por , em 17/7/15

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Queridas Senhoras,

passaram hoje 56 anos sobre a morte de Billie Holiday, e este ano, a 7 de Abril, assinalou-se o centenário do seu nascimento. Todos nós temos pessoas destas nas nossas vidas, gente que nunca conhecemos mas cuja passagem pelo mundo, de uma maneira ou de noutra, nos salva. Billie Holiday é uma dessas pessoas para mim.

Já tenho a casa nova toda composta e a maior parte dos quadros pendurados, mas houve dois que se partiram no transporte e que ainda aguardam reparação: imaginem, uma reprodução do Nighthawks, de Hopper, e outra da imagem acima, que imortaliza uma jam session no Carnegie Hall, em Nova Iorque, em 1944, com Lady Day ao centro. E esta faz-me muita falta, substituir aquele vidro está no topo das minha lista de prioridades, agora que já temos onde dormir e como cozinhar. É um quadro grande, 60 por 90 cm, enche-me a vista e a imaginação e, em certos dias, com a disposição certa e a música certa a tocar, sinto-me lá. Uma ilusão impagável.

Tenho outra reprodução que evoca esta minha heroína.

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Trata-se de uma ilustração de Paul Rogers, o artista que decidiu escolher de cada página do livro On the Road, de Jack Kerouac, uma inspiração para desenhar. A frase é retirada do livro e ocorreu-me de imediato hoje, quando encontrei este poema de Frank O’Hara, The Lady Day Died:

It is 12:20 in New York a Friday
three days after Bastille day, yes
it is 1959 and I go get a shoeshine
because I will get off the 4:19 in Easthampton
at 7:15 and then go straight to dinner
and I don’t know the people who will feed me

I walk up the muggy street beginning to sun
and have a hamburger and a malted and buy
an ugly NEW WORLD WRITING to see what the poets
in Ghana are doing these days
I go on to the bank
and Miss Stillwagon (first name Linda I once heard)
doesn’t even look up my balance for once in her life
and in the GOLDEN GRIFFIN I get a little Verlaine
for Patsy with drawings by Bonnard although I do
think of Hesiod, trans. Richmond Lattimore or
Brendan Behan’s new play or Le Balcon or Les Nègres
of Genet, but I don’t, I stick with Verlaine
after practically going to sleep with quandariness

and for Mike I just stroll into the PARK LANE
Liquor Store and ask for a bottle of Strega and
then I go back where I came from to 6th Avenue
and the tobacconist in the Ziegfeld Theatre and
casually ask for a carton of Gauloises and a carton
of Picayunes, and a NEW YORK POST with her face on it

and I am sweating a lot by now and thinking of
leaning on the john door in the 5 SPOT
while she whispered a song along the keyboard
to Mal Waldron and everyone and I stopped breathing

Talvez um dia eu consiga, como Jack Kerouac e Frank O’Hara conseguiram, encontrar as palavras que traduzam a emoção que sinto quando Biilie Holiday, nalgumas versões de My Man, sobe aquilo que me parece ser uma oitava para cantar I’ll go away, e não é uma exclamação, é um lamento.

Ora bem, e para terminar comme il faut, vamos lá a um pezinho de dança:

Até porque hoje é sexta-feira!
Bom fim-de-semana a todas,

Marta

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No Bairro do Amor

por , em 6/11/14

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Queridas Senhoras,

já disse aqui que a música não tem, na minha vida, a importância que tem na vossa. Quando comecei a escrever no blogue, procurava associar uma canção a cada post (para seguir o modelo que tinham adoptado). Isso nem sempre era fácil para mim mas no primeiro post lembro-me claramente de ter escolhido um tema do Jorge Palma, uma presença constante desde que me lembro.

Hoje às 21 horas vou estar no CCB a assistir ao concerto que celebra os 25 anos do álbum O Bairro do Amor.

Onde é que vocês estavam em 1989? Eu tinha 15 anos e estava no auge da adolescência! Estava a começar a melhor fase no Liceu, os anos terminais em que iria conhecer dois dos professores mais importantes da minha formação e aprofundar as duas melhores disciplinas de sempre – Português e Filosofia.

(Cada vez que penso nisso, menos entendo o que me levou a afastar-me do território da linguagem. Porquê, porquê?)

1989, ano que Jorge Palma lançava um álbum que iria entrar na história da música portuguesa. Um conjunto de canções que haveriam de tornar-se hinos perfeitos da melancolia que todos precisamos na adolescência e juventude. Palavras, pedaços de frases que nos descreviam (descrevem) tão bem. Sempre num limbo, num perigo iminente de desintegração. Mas com a segurança, afinal, de ser só a letra de uma canção.

Põe-me o braço no ombro / Eu preciso de alguém / Dou-me com toda a gente / Não me dou a ninguém

A vertigem das primeiras saídas

O vinho não era bom / A banda não tinha tom / Mas tu fizeste a noite apetecer

Aquela música que ao primeiro acorde nos faz sentir um milhão de coisas

Só por existir / Só por duvidar

A ternura e a tristeza juntas sabem sempre melhor

No bairro do amor a vida corre sempre igual / De café em café, de bar em bar / No bairro do amor o Sol parece maior / E há ondas de ternura em cada olhar

A esperança, a salvação, o amor redentor

O tempo não sabe nada, o tempo não tem razão / O tempo nunca existiu, o tempo é nossa invenção / Se abandonarmos as horas não nos sentimos sós / Meu amor, o tempo somos nós

Hoje vou celebrar o Amor!

Beijinhos a todas,

Céu

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Queridas Senhoras,

hoje vinha a ler um artigo sobre este livro e lembrei-me logo de vocês. Não porque ache que vocês gostem especialmente de “música para sofrer” (nem pouco mais ou menos) mas porque sei que a música é fundamental nas vossas vidas, nos bons e nos maus momentos. E sei que a música, muitas vezes, salva. E que há músicas boas para estarmos tristes e nos sentirmos miseráveis.

Sei que é quase um pecado dizer isto (lá vem outro, logo depois do gostar de estar sozinha :) ) mas a música nunca teve esse papel fundamental na minha vida. Nunca dependi da música como, por exemplo, dos livros e do cinema. Não sei bem porquê, sinceramente. Cresci com música, o meu pai canta e toca viola. Cresci com as canções do Zeca Afonso, fados de Coimbra e todo um vasto repertório. É claro que gosto de música, não me interpretem mal. Mas nunca foi uma paixão, uma obsessão, nunca tive bandas favoritas, nunca fui grande fã de concertos. A minha irmã foi a típica adolescente que não passava sem música e até já escreveu uma carta ao Eddie Vedder e julgo que lhe apertou a mão ou assim.  Nada disso se passou comigo, a minha adolescência não envolveu bater com a porta e fechar-me no quarto com a aparelhagem no máximo. Quer dizer, lá bater com as portas bati (a minha Mãe que o diga) mas o mais certo era refugiar-me no silêncio de um livro.

Ora, embora não tenha uma história forte com a música (mal conheço as bandas, não sei quem canta o quê, etc.) gosto muito de ler sobre o assunto. Não esqueço uns textos deliciosos do Pedro Mexia sobre canções miserabilistas e sofredoras dos anos 80. De forma que o título deste livro despertou-me logo o interesse. Posso não ligar muito a música mas ligo à forma como as pessoas se relacionam com a música, aos enredos que se criam à volta disso. Por isso adorei o filme Alta Fidelidade e outros que retratam o universo dos viciados em música.

A sinopse do livro diz assim:

“Sad music moves us like nothing else, and despite its gloomy nature it also has the curious power to make us happy. In This Will End in Tears: The Miserabilist Guide to Music, author Adam Brent Houghtaling explains why, while offering up a compendium of history’s masters of melancholy and the greatest sad songs of all time, featuring artists across genres and through time—from torch songs to country weepers to emo classics. Loaded with recommended playlists and insights into our favorite sob songs, This Will End in Tears is a fascinating immersion into the “miserabilist” genre, a musical marker with increasing resonance.”

Aqui encontram a lista das 100 canções mais tristes de sempre, numa selecção do autor.

A pergunta impõe-se: queridas Senhoras, qual é a vossa música preferida para sofrer?

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Questionário ‘Ter 40′