Queridas Senhoras,

estou viciada em Shetland.

I’m hooked as well. It’s a damn good yarn, a gripping detective story, on top of the mood, the wildness. The beautiful landscape and all that. I wonder what the tourist board thinks of it. Visit Shetland, for its haunting nature, brooding skies, empty beaches, plentiful recreational drugs. On the downside they (the drugs) may kill you. And if they don’t, someone else almost certainly will. – Sam Walloston, The Guardian

Não sabia nada sobre estas ilhas escocesas antes do passado fim-de-semana. Mas bastou um relance daquela paisagem hostilmente magnífica para perceber que este seria o meu destino nos próximos tempos, uma vez por semana, sem sair do sofá.

Vocês sabem. Nevoeiro, portos piscatórios, mar, desolação e obstinação. Os ingredientes essenciais do meu postal ilustrado preferido.

Em Shetland, escrito (sobretudo) pela premiada Ann Cleeves, que também assina a série Vera, encontramos o detective Jimmy Perez, que se mudara para Glasgow mas decidiu regressar a casa após enviuvar. Com ele vive a filha, ou melhor, a enteada, que é, na verdade, mais sua filha do que do pai biológico. Esse chama-se Duncan, é amigo de Jimmy, também vive nas Shetland e recupera agora um pouco da ligação perdida com a filha, após tê-la abandonado, e à mãe dela, há muitos, muitos anos.

A acompanhar Perez, a jovem detective Alison McIntosh, acabadinha de não casar e frequentemente de ressaca, e o agente-aspirante-a-detective Sandy Wilson, que descobre a avó assassinada a tiro de caçadeira logo no primeiro episódio.

Esta série vem agora juntar-se a Vera, Endeavour, Inspector George Gently e Midsomer Murders no meu leque de preferências. Mas Shetland (tal como Vera) tem a particularidade de passar-se na actualidade. E eu não posso deixar de sentir-me espantada (e esperançada) por verificar que, na era do Facebook, ainda há lugares onde se vive assim. É que ali nada parece seguro, nem o chão nem o céu nem o mar em volta de tudo; mas há tempo suficiente para se ter cuidado com o sítio onde se colocam os pés, passo após passo.

Não percam, no Fox Crime.

Beijinhos,

Marta

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Albertina

por , em 14/7/16

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Queridas Senhoras,

de Lisboa para o Furadouro (Ovar), mergulhei na segunda-longa metragem de Paulo Rocha. Mudar de Vida (1966) passou na última sexta-feira, 8 de Julho, integrado no ciclo que a RTP2 está a dedicar ao realizador.

Depois de Os Verdes Anos, fiquei apaixonada pela Isabel Ruth e estava desejosa de vê-la neste filme. Mas a personagem dela, bela e intensa, só entra lá para o meio. De início é Júlia (Maria Barroso), o seu exacto oposto, quem preenche o ecrã juntamente com Adelino (Geraldo Del Rey), o improvável galã do Furadouro (notável a parecença com Alain Delon).

Numa penada: Adelino voltou do Ultramar para encontrar a antiga namorada casada com o irmão e com dois filhos postos no mundo. Desgraça. Tragédia. Amargura. Arrependimento. Inevitabilidade. Júlia arca com todo este peso sobre as costas, habituadas a vergarem-se ao trabalho impiedoso no areal do Furadouro.

Adelino regressou para nada, para o nada. Já não pertence aqui. A namorada é de outro, os filhos são de outro e nem para o trabalho no mar serve, já que veio da guerra com um problema de espinha que o deixa inapto para cargas pesadas. E tudo o que aqui há são cargas pesadas, asfixiantes, uma comunidade piscatória claustrofóbica e sem horizontes. Já nesse tempo o mar não dava, já não havia peixe. É então que surge a bela Albertina, assaltando a caixa de esmolas da capela, fugindo, correndo, libertando-se.

Como Ilda, esta Albertina é uma força da natureza. Menos inocente, mais marcada pela vida, mas aqueles olhos… estou presa aos olhos de Isabel Ruth.

 

Beijinhos a todas,

Céu

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O fastio de ser mulher

por , em 5/7/16

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Queridas Senhoras,

a RTP2 está a dedicar um ciclo a Paulo Rocha durante as sextas-feiras de Julho. Quero aproveitar a oportunidade para conhecer a obra deste realizador fundamental no cinema português e comecei com Os Verdes Anos (1963), obra considerada fundadora de um novo cinema, que veio a fazer escola e a ser citado em vários filmes posteriores de outros realizadores.

O filme é belíssimo e desolador, acompanhando os passeios de Ilda e Júlio pela Lisboa dos anos 60, entre os ambientes burgueses da Avenida de Roma (Ilda é criada de servir) e os arrabaldes campestres onde o aprendiz de sapateiro Júlio vive com o tio. A guitarra de Carlos Paredes entoa e sublinha estas deambulações de forma pungente, dolorosa.

Gostaria de focar-me na personagem de Ilda (Isabel Ruth) que surge magnífica e esperançosa, como o prenúncio de um novo tempo, de uma nova mulher, no meio de todo aquele atavismo, o peso da tradição, a amargura, a ancestralidade. Ilda é alegre e feliz, está decidida a não ser para sempre criada de servir. Se ao menos não lhe tivesse morrido a mãe… Mas se não é de uma maneira, é de outra, diz ela às tantas, decidida, afoita, rapariga que se faz à vida. Quer estabelecer-se como costureira, tem habilidade e está disposta a empreender. Tem sede de viver esta Ilda, mas Júlio há-de trocar-lhe as voltas.

É irónico e amargo que um dos filmes basilares do cinema português reproduza a tragédia da violência do homem português sobre a mulher portuguesa. A doença do controlo e da posse. Júlio veio da aldeia e não encontra o seu lugar na cidade. Não pertence a lado nenhuma. Tem umas ideias de ir para o estrangeiro mas é uma aspiração vaga. Está aturdido, encurralado, não encaixa nos ambientes, não sabe respirar. Tenta acompanhar Ilda nos passeios de domingo, chegam a ir dançar numa matiné. Ilda é atrevida, esteve a experimentar as roupas da patroa, até uns calções mínimos que lhe ficam a matar. E depois vai dançar, rodopia livre na sala, o rock n’ roll toca no gira-discos. Mas Júlio não acerta o passo. Nunca há-de acertar o passo e é Ilda quem vai pagar por isso.

A jovem e destemida Ilda, tão livre, tão solta, tão cheia de vida, deixa cair apenas um desabafo:

“Às vezes dá-me um fastio ser mulher…”
Beijinhos a todas,

Céu

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Sexo para todos

por , em 13/6/16

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Queridas Senhoras,

julgo que não há memória deste blogue chamar o sexo para a capa pelo que não podemos ser acusadas de usar truques baixos para vender posts. Além disso, isto é um blogue familiar, lido inclusive por crianças (pelo menos uma, a minha filha!) pelo que também não receiem que este texto vá contra os princípios do decoro ou ultrapasse os limites da decência.

Está em cartaz um filmezinho  descrito como “comédia erótica”, o que à partida não augura nada de bom. A comédia já é um caso sério ainda para mais de contornos erótico-sexuais. O termo remete-me para cenas tão embaraçosas como a série Com jeito vai, no original Carry On (se não se lembram, melhor para vocês), piadas escabrosas de filmes de adolescentes de American Pye para baixo e, de forma vaga, uns filmes hippies dos anos 70 passados em praias e colónias de nudistas (???).

Foi, pois, bastante desconfiada e céptica quanto às potencialidades de uma comédia erótico-sexual que me dirigi à sala de cinema (coisa cada vez mais rara) para assistir a um obscuro filme espanhol intitulado Kiki, El Amor se Hace (em português, Desejos, o Amor Faz-se), de Paco Léon.

Como é quase impossível ver filmes espanhóis sem pensar em Almodôvar, essa é a primeira referência que salta à vista, nesta trama de casais às voltas com as suas dificuldades sexuais num Verão quente e festivo.

Em concreto, o tema do filme são as parafilias sexuais o que acentua o perigo de tudo descambar depressa numa idiotice pegada. A surpresa é que a coisa se aguenta e chega a ter grandes momentos.

O enredo trata desde os casos mais comezinhos aos mais estranhos, isto se aferirmos os comportamentos por uma pretensa normalidade e respectivos desvios à norma.

Temos o clássico casal a braços com a monotonia sexual que consulta um terapeuta para procurar pistas de salvação (ele diz que ela não sabe fazer fellatios, ela diz que ele é uma “máquina com pila” para quem os preliminares são território desconhecido). Uma senhora casada tenta engravidar há dois anos, fazendo sexo em todas as datas certas (e algumas extra) terminando sempre com as pernas para cima. Até que descobre que ter orgasmos ajuda e o que a ajuda a ela é ver o marido chorar. Outro homem casado põe gotas no chá da mulher para ela dormir que nem uma pedra e ele poder desfrutar dela durante a noite (sim, isto está a ficar estranho; aliás, este caso é bastante estúpido porque implica sexo sem consentimento e sem conhecimento, fugindo à regra de um enredo que se mantém num registo são e divertido). Há ainda uma moça solteira, surda, com um fétiche por tecidos bons; uma rapariga que vende cuecas usadas (as suas) para ter dinheiro de bolso; uma moça casadoira com um historial de parafilias na família que sente extremo prazer em situações de perigo e cuja irmã é doida por plantas. Etc. Etc.

O filme cuida bem de toda esta gente, das suas taras e manias, e segura as pontas do bom gosto e do bom senso, nunca resvalando para a idiotice mas naturalmente tocando em assuntos de natureza mais escabrosa ou escatológica que me reprimo de mencionar aqui (em nome do tal decoro e ressalvando a possibilidade de a Alice chegar mesmo a ler isto e de eu ficar com muito para explicar). Sem surpresas, tudo acaba bem até porque esta é uma película estival, alegre e bem-disposta.

Se não chegarem a ver o filme, arranjem maneira de ver o gag mais hilariante: uma chamada erótica intermediada em linguagem gestual.

Beijinhos a todas!

Céu

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Sentido único

por , em 15/5/15

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Queridas Senhoras,

alguém viu ontem a estreia de Wayward Pines no canal Fox? Um artigo na revista Time Out chamou-me a atenção, depois percebi que a série estava a ser anunciada e falada em todo o lado como um grande acontecimento (como fazem agora os canais com estas estreias mundiais esmagadoras: 126 países viram o primeiro episódio).

Do que li, chamaram-me a atenção alguns elementos que me levaram a ficar acordada para assistir ao primeiro episódio: reminiscências e influências de Twin Peaks, realização M. Night Shyamalan e algumas caras conhecidas do cinema (Matt Dillon, Juliette Lewis, entre outros) a acrescentar valor.

Não me arrependi de ter ficado acordada mas não sei o que esperar dos próximos episódios. É que parece que já ficámos a saber tudo. Conhecemos bem este universo, os ambientes de cidade fictícia habitada por gente estranha (expectável mas sempre deliciosa a apresentação da galeria de personagens, cada um mais apanhadinho que o outro. A enfermeira Pam – Melissa Leo – é um clássico instantâneo. Podemos ter pesadelos com aquela bata branca de seringa em riste).

Mas como dizia, já vimos muitos filmes e bastante TV desta, com criaturas normalizadas ao jeito das Stepford Wives, os cenários à Truman Show (não há grilos verdadeiros, são gravadores espalhados), as vilas afastadas e isoladas de tudo que escondem um segredo (o próprio M. Night Shyamalan tem um filme chamado The Village).

No primeiro episódio, tal como nós, o agente especial Ethan Burke (Matt Dillon) fica a saber tudo: que foi parar a uma cidadezinha sinistra, cheia de gente doida, de onde não o vão deixar sair tão cedo (naturalmente, alias, a cidade não tem saída: a estrada anda em círculos).

Portanto o que segue? Qual o caminho que a série irá tomar?

(Está visto que não li os resumos dos próximos episódios.)

Beijinhos a todas,
Céu

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Les Hommes de l'Ombre episode2

Queridas Senhoras,

depois de Borgen, de que falámos aqui, as noites de segunda a sexta no canal dois continuam animadas. Presentemente passa a série francesa Os Influentes que também aborda as relações entre a política e os media, à mistura com os inevitáveis dramas pessoais.

Entre estas duas não deixámos escapar Príncipe, de origem espanhola. Menos sofisticada que as anteriores, por assim dizer, não deixou de proporcionar três ou quatro semanas de serões empolgantes. Se os amores entre o inspector Morey e a professora Fátima não me convenceram (demasiado perfeitos ambos: ele saído de um anúncio da Hugo Boss, ela mais bonita do que devia ser permitido), fiquei com saudades de Fran, o chefe da polícia, e em pulgas pela segunda temporada. Será que Fátima vai mesmo casar com o malvado Khaled, que os últimos episódios revelaram ser o chefe da célula terrorista de El Príncipe, Ceuta?

A passagem para Os Influentes foi brusca. Depois dos ares frescos e salgados do Norte de África, entramos de chofre nos meandros da política francesa num momento de choque: o presidente é assassinado. Quem nos facilita a entrada neste universo é Simon Kapita, um expert em comunicação e assessoria de imprensa que era também amigo pessoal do presidente. Para impedir a ascensão de um primeiro-ministro com poucos escrúpulos, Simon recusa um cargo na ONU e fica em Paris para montar a campanha da candidata que escolheu para defrontar Deleuvre. Ela é Anne Visage, a discreta secretária de estado dos assuntos sociais que era também, afinal, amante de Pierre, o malogrado presidente francês.

Que tal esta trama? É bom mas não é tudo. Falta mencionar uma personagem fundamental, Ludovic, que está do outro lado da barricada a orquestrar a campanha do primeiro-ministro Deleuvre. Discípulo de Simon, Ludovic não olha a meios para atingir os objectivos. E nesta luta pelo poder e pela supremacia vai tentar tudo para ultrapassar o seu antigo mestre.

Os Influentes têm vários traços em comum com Borgen mas quanto a mim falta-lhe um je ne sais quoi que a série dinamarquesa tinha e aqui não vejo. Acho que tem a ver com as próprias personagens, a maneira como falam, os ambientes em que se movem. Borgen era extraordinariamente humana, quotidiana, próxima. Penso que foi isso que fez da série um fenómeno. Tanto que vai ser reposta, já a partir de 15 de Março.

Beijinhos a todas,

Céu

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Questionário ‘Ter 40′