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Queridas Senhoras,

leio a crónica deste domingo do Joel Neto que cita o Miguel Esteves Cardoso que cita Robin Lane Fox, um intelectual que vive no countryside inglês e escreve, tal como os outros dois, sobre a vida no campo (é correspondente de Jardinagem para o Financial Times: não se pode ser mais british do que isto!). JN escreve desde os Dos Caminhos, ilha Terceira, MEC desde Almoçageme, Colares. Todos adoram e enaltecem a vida rural, desde que não venham com modernices.

Ora, para queremos o nosso countryside intocável, não é preciso ser escritor ou intelectual. Basta ser um tanto egoísta e isso, graças a Deus, somos todos. Robin Lane Fox teme o aumento dos preços e a chegada do cappucino aos cafés da sua aldeola. Percebo-o perfeitamente, eu também não quero sunset parties na praia fluvial da Aldeia Viçosa. Não quero cocktails e tapas, podem ter a certeza. Se o bar tiver que servir alguma coisa para além de café, cerveja e amendoins, que sejam biscoitos amassados na terra, sandes de pão centeio com presunto e queijo da Serra.

O sunset já é foleiro que chegue em Lisboa ou Vilamoura mas na Aldeia Viçosa é simplesmente… embaraçoso. Quero a minha aldeia exactamente igual ao que sempre foi, fazendo sobressair e valer-se daquilo que a torna única e especial. No restaurante não quero carpaccio de bacalhau, quero lagarada à moda do Mondego, ainda com reminiscências dos antigos lagares, de preferência com uma ementa cuidada que refira a origem dos pratos, que conte a sua história. Quero farófias para sobremesa e arroz doce à moda da aldeia.

(E, sim, chegámos àquela altura do ano em que já só falo da aldeia e do rio Mondego).

Beijinhos a todas!

Céu

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Cheira a Julho

por , em 3/7/16

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Queridas Senhoras,

esta manhã fui correr para a mata e cheirava intensamente a Julho. A manha já ia bem alta, o calor estalava, cheirava a erva seca e a figos.

Julho é a essência do Verão, das férias grandes e ainda hoje me parece estranho trabalhar em Julho. É também o mês em que faço anos e talvez por isso os cheiros de Julho tenham ficado tão entranhados. Em Julho só existe a praia, o rio e a mata. O ruído é o zumbido contínuo das cigarras (são cigarras?) e à noite o dos grilos.

Lia ontem na autobiografia do John Cleese (Ora, como eu dizia…) que quanto mais uma criança muda de casa e de ambientes durante a infância, quanto mais instabilidade conhecer, mais criativa se torna (ele próprio mudou de casa onze vezes até aos onze anos). Porque tem permanentemente que reconfigurar as relações entre as pessoas e os lugares, estabelecer diferenças entre o antes e o depois, adaptar-se às novas situações, e tudo isso faz aumentar a criatividade.

Deve ser por isso que sou incapaz de inventar uma história. Os ambientes da minha infância são tão imutáveis que ainda aqui estão. Nem preciso de fechar os olhos. Os cheiros são os mesmos. E se falo tanto dos cheiros, é porque esse elemento me ataca sempre com uma força surpreendente. O aroma do pinhal, da erva seca, transporta-me de imediato para um piquenique que não tenho a certeza se existiu ou talvez seja a recriação perfeita, a soma de todos os piqueniques que todas as famílias deviam fazer em Julho.

O ar está parado, as moscas preguiçam em volta dos restos de comida, o zumbido embala a sesta, alguém descansa numa cama de rede, um grupo joga à sueca numa manta estendida, ouvem-se vozes de crianças a brincar e adultos a conversar.

A tarde é enorme. Estamos Julho, o tempo está suspenso.

Beijinhos a todas,

Céu

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Férias

por , em 5/4/15

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Queridas Senhoras,

uma semana de férias com sabor a Verão foi aquilo a que tivemos direito. Tirando o enfado de fazer e desfazer malas, a canseira de arrumar e limpar, a costumeira sensação de nunca termos descanso, na verdade foi uma semana bastante descansada, no sentido mais produtivo do termo.

Corrida
A corrida matinal ganha outro impulso com a brisa marítima. Saio para correr todos os dias por volta das oito (ou antes, quando consigo), regresso uma hora e pouco depois e arrancamos para a praia. À beira-mar não resisto a uma caminhada que por vezes se transforma na segunda corrida do dia. Pelo puro prazer de correr mesmo junto ao mar, de sentir as gotas de água salgada colando-se ao rosto com o vento. Caminhar ou correr numa espécie de hipnose, absorvendo o mar e o vento, o mar e o vento. [Não perceber porque passo tanto tempo longe do mar e do vento.] Entrar pela enésima vez em fantasias de ter uma vida mais livre, mais solta, mais próxima do mar e do vento.

Comida
Evitar os pratos do dia-a-dia, comer o que não é costume ou é raro. Raro para quem, como nós, nunca se dá ao trabalho de efectivamente cozinhar. Lulas recheadas. Favas à algarvia com peixe frito. Feijoada de marisco. Posta de cherne grelhado. Pernil assado. Começar sempre com uma bela sopa. Juliana, feijão, espinafres. (Para mim não cola a ideia de que com calor não se come sopa. Defendo a sopa acima de todos os pratos!).
Pecado: comer folar quente aos pedaços, pelo caminho, e chegar a casa com apenas metade.

Livros
Ou tenho muita sorte ou são as férias que tornam as leituras especialmente boas. Origens, do libanês Amin Maalouf, é o livro que me acompanha ao longo da semana. Caiu-me nas mãos via Calita e fez-me uma companhia tão boa que nem vos digo. Desconhecia a obra e o autor (é para isso que servem os bons blogues), a descoberta foi total, em todos os sentidos. O autor mergulha nas suas origens familiares para nos contar a história aventurosa dos seus antepassados e de um território de difícil apreensão: o Médio-Oriente.
Acabo as mais de 400 páginas e ainda me sobra tempo. Folheio e leio algumas partes de My Age of Anxiety mas na realidade não quero afligir-me. Pego num pequeno livro de poemas de Jorge Luís Borges, Os Conjurados, e leio no prólogo, escrito aos 85 anos (um ano antes da sua morte), “Não se passa um dia que não estejamos, um instante, no paraíso.”

Notícias
Não vejo TV, não consulto o facebook. Não por nenhuma convicção especial mas porque nas férias gosto de cortar com alguns hábitos (tem a ver com alimentação também: não quero mais do mesmo).
Morre o Manoel de Oliveira e apetece-me ler tudo o que sai nos jornais. Na realidade, pouco melhor conheço os seus filmes do que conhecia a poesia de Herberto. Mas sinto-os como uma omnipresença e quando leio que “a voz off do narrador de Vale Abraão” é qualquer coisa de prodigioso (“o que de mais belo ouvimos nos últimos 20 anos”), ouço essa voz, tenho essas imagens comigo. Previsivelmente, fico com muita vontade de ver todos os filmes, colmatar todas as falhas, ler toda a poesia. [Voltar a fantasiar com uma vida livre, solta, com muitos livros, filmes e corridas junto ao mar. Uma sucessão de instantes. Mas quando é que vou crescer? Lá para os 85?]

Como foi a vossa semana? O que contam?

Beijinhos a todas,

Céu

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Leitura de férias

por , em 9/8/14

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Queridas Senhoras,

vamos hoje de férias. Primeiro, serra, depois, mar. Em ambos, família. E o principal preparativo que fiz para a viagem foi passar na biblioteca, que nesta altura estende o prazo dos alugueres a 28 dias.

Doris Lessing, Toni Morrisson, Penelope Fitzgerald e Flannery O’Connor juntam-se a mim neste indeciso mês de Agosto. Depois conto-vos tudo sobre estas leituras.

E vocês, o que andam a ler nestas férias?

Beijinhos grandes,

Marta

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Queridas Senhoras,

que passeios sugerem para estas férias? Por onde é que vão andar?

Agora que o Verão parece ter chegado de vez, e em jeito de aperitivo para as “férias grandes”, gostava de deixar uma sugestão aos nossos leitores. Nada de muito original, claro, é simplesmente o tipo de local que eu mais adoro, sobre o qual já falei aqui várias vezes: as nossas maravilhosas, frescas e retemperadoras praias fluviais!

O ano passado fiz um fim-de-semana na zona das Aldeias do Xisto sobre o qual escrevei brevemente aqui. Nesses dois dias andei pelos concelhos de Vila de Rei, Proença-a-Nova, Mação, Sertã e Oleiros, e descobri autênticos paraísos como a Fróia, a Cerejeira, Alvito da Beira ou Açude Pinto.

Claro que há muito mais para descobrir nesta região onde quero voltar, se possível, ainda este ano, para conhecer outros paraísos à beira-rio. Por exemplo, no concelho de Pampilhosa da Serra, distrito de Coimbra, onde nunca fui, e onde ficam três das seis praias fluviais das Aldeias do Xisto com Bandeira Azul. Galardoadas pela primeira vez este ano, são elas Janeiro de Baixo, Pessegueiro e Santa Luzia. Alvôco das Várzeas (concelho de Oliveira do Hospital) também estreia a bandeira. Louçainha (Penela) e Peneda (Góis) conservam-na.

É um território maravilhoso para passear, permite férias calmas, sem o frenesim das localidades costeiras. Saboreiem e descubram mais aqui e aqui.

Votos de boas férias!

Beijinhos a todas,

Céu

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1 – Começar a descontrair logo no primeiro minuto de férias. Sim, é difícil desacelerar e o stress e os ritmos e não sei quê. Mas para alguma coisa tem de servir tanto yoga, tanto pensamento positivo e mais meia dúzia de cenas new age que vou consumindo e acreditando.

2 – Aceitar pacificamente que a areia é o elemento que convive connosco ao longo das férias, a qualquer hora e em qualquer lugar. Parar com a obsessão de varrer todos os cantos da casa e deixar a areia fluir livremente por onde quer que seja.

3 – Evitar levar as crianças ao restaurante. Desistir mesmo. Assumir que não funciona. Pelo menos com as minhas. Perceber que o Miguel Sousa Tavares tem muita razão quando diz que restaurante não é lugar para menores de 15 anos. 12, vá.

4 – Não olhar constantemente para as pernas na praia, à procura de pelos encravados, borbulhinhas e outras imperfeiçõezinhas que só eu mesma vejo por andar a esquadrinhar a pele que nem uma tolinha.

5 – Comer e beber o que me apetecer, sem recriminações. Batidos, gelados, crepes, bolos da Padaria Central, pizzas, bifes. Na loucura, eventualmente até uma bola de Berlim.

6 – Não chatear muito os miúdos. Eles também têm direito a férias, a quebrar a rotina, a ouvir mais sins do que nãos, a deitarem-se mais tarde, comerem mais gelados, serem (ainda mais) desarrumados.

7 – Apostar na divisão de tarefas. Não incompatível com o ponto anterior. Exige negociação. Não faz muito sentido que todos os trabalhos recaiam nos ombros dos pais para os meninos andarem na vida airada. Os pais PRECISAM de férias.

8 – Viver um momento de cada vez, sem pensar no seguinte. Esta é difícil. Mas volto ao início, tanto yoga, tanta filosofia, tem de servir para alguma coisa. Não é estar na praia a pensar no que é o almoço e na máquina que é preciso pôr a lavar.

9 – Manter algumas rotinas (corrida, yoga) mas não ser obsessiva nem inflexível. Respeitar o corpo, os ritmos, o cansaço, conceder algumas baldas se for o caso. Mas não cair na preguiça que induz mais preguiça.

10 – DESCONTRAIR DESCONTRAIR DESCONTRAIR DESCONTRAIR

 

Beijinhos a todas, bom fim de semana!

Céu

 

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Questionário ‘Ter 40′