Lenha para a fogueira

por , em 15/9/16

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Queridas Senhoras,

hoje passámos a manhã na ‘Escola Primária’ (é engraçado como a expressão se recusa a desaparecer). Foi o primeiro dia de aulas do Francisco, que continua a ver o seu Jardim de Infância através das grades, mas que agora sente outro tipo de responsabilidade. Não sei onde é que ele foi buscar as preocupações que tem manifestado nos últimos tempos.

- E se tiver má nota?

- E se eu não tiver espaço na cabeça para tudo?

- E se os outros miúdos gozarem comigo por eu ser pequenino?

- Se eu tiver má nota no primeiro dia a culpa não é minha, pois não, ainda não tive tempo para aprender…

Aos poucos, tenho tentado desconstruir estes monstros assustadores, relativizando e simplificando, mas sempre desejosa de que comece o raio da escola de uma vez por todas, porque tenho a certeza de que mal ele perceba o que é que ali se vai passar vai relaxar. Não sei de onde vêm estas assombrações – sei que não nasceram nem em minha casa nem em casa do pai, isso é certo. São coisas que ele ouve por aí. Felizmente, fala delas connosco. Espero que seja sempre assim.

Mas cá entre nós, enquanto eu o tento tranquilizar, confesso que lido com os meus próprios monstros. A minha ‘primária’ correspondeu a um período muito conturbado da minha infância e, provavelmente por isso, tenho muito poucas memórias claras desse tempo, meia-dúzia de pormenores, apenas. Por isso, cá entre nós, confesso que deposito alguma esperança redentora no que aí vem. Que eu possa restaurar um pouco a minha infância através do Francisco. Será pedir demais? Provavelmente.

Para ele, desejo muita amizade e muita curiosidade. E a coisa dá-se.

Abraço a todas,

Marta

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Cheira a Julho

por , em 3/7/16

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Queridas Senhoras,

esta manhã fui correr para a mata e cheirava intensamente a Julho. A manha já ia bem alta, o calor estalava, cheirava a erva seca e a figos.

Julho é a essência do Verão, das férias grandes e ainda hoje me parece estranho trabalhar em Julho. É também o mês em que faço anos e talvez por isso os cheiros de Julho tenham ficado tão entranhados. Em Julho só existe a praia, o rio e a mata. O ruído é o zumbido contínuo das cigarras (são cigarras?) e à noite o dos grilos.

Lia ontem na autobiografia do John Cleese (Ora, como eu dizia…) que quanto mais uma criança muda de casa e de ambientes durante a infância, quanto mais instabilidade conhecer, mais criativa se torna (ele próprio mudou de casa onze vezes até aos onze anos). Porque tem permanentemente que reconfigurar as relações entre as pessoas e os lugares, estabelecer diferenças entre o antes e o depois, adaptar-se às novas situações, e tudo isso faz aumentar a criatividade.

Deve ser por isso que sou incapaz de inventar uma história. Os ambientes da minha infância são tão imutáveis que ainda aqui estão. Nem preciso de fechar os olhos. Os cheiros são os mesmos. E se falo tanto dos cheiros, é porque esse elemento me ataca sempre com uma força surpreendente. O aroma do pinhal, da erva seca, transporta-me de imediato para um piquenique que não tenho a certeza se existiu ou talvez seja a recriação perfeita, a soma de todos os piqueniques que todas as famílias deviam fazer em Julho.

O ar está parado, as moscas preguiçam em volta dos restos de comida, o zumbido embala a sesta, alguém descansa numa cama de rede, um grupo joga à sueca numa manta estendida, ouvem-se vozes de crianças a brincar e adultos a conversar.

A tarde é enorme. Estamos Julho, o tempo está suspenso.

Beijinhos a todas,

Céu

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Queridas Senhoras,

ontem foi dia de saída cultural entre mãe e filhas (eu, irmã e mãe). Anseio pelo dia em que a Alice se juntará a nós. Ainda tentei cativá-la para vir connosco mas não foi, literalmente, na conversa. Não se tratava de um programa convencional de cinema, teatro ou música. Era uma conversa no âmbito do Estar em Casa, evento com uma série de iniciativas espalhadas pelos vários espaços do Teatro Municipal S. Luiz. (Achei que o tema podia ser apropriado para a Alice mas como ela já sabe o que a casa gasta, é muito vigilante em relação aos meus convites, receia ser arrastada para programas que não são para a idade dela.)

Assistimos a duas conversas – Família: as coisas que se passam em casa e A casa da minha infância - com variados e interessantes conversadores (mas aqui não vale a pena disfarçar: fomos lá pelo Pedro Mexia, interveniente do segundo painel).

Richard Zimler falou da excessiva importância que em Portugal se dá à família, do modo como a casa de família é protegida do exterior e como é difícil aceder a esse universo, inclusivamente ser convidado para jantar ou para socializar. Alexandre Quintanilha, no segundo painel, entre muitas histórias divertidas e enternecedoras, tocou no mesmo, a forma como tapamos as nossas janelas com portadas e cortinas, como não queremos que nos vejam de fora para dentro. Eles, em contrapartida, mandaram construir uma casa sem paredes no interior e com uma enorme parede em vidro, escancarada ao exterior.

Gabriela Moita, sexóloga, alinhou com Zimler quando caricaturou a pressão da sociedade para manter a família, ou a aparência de família, a todo o custo. Perante anos de violência doméstica contínua, não é raro que se louve a mulher que “fez tudo para salvar a família” em detrimento da sua própria salvação. A família sobrepõe-se ao pessoal, quase anulando o indivíduo.

Ana Margarida Carvalho, jornalista e escritora (filha do escritor Mário de Carvalho), falou dos códigos familiares, de um tom, de uma linguagem própria que se desenvolve entre os membros da família, não inteiramente captada pelos estranhos ao meio familiar.

Pedro Mexia mencionou o mesmo ao referir, inclusive, a existência de palavras próprias da família. É usual o revisor da editora ou do jornal mandar provas para trás com a indicação de que determinada palavra não existe. O dicionário confirma que sim, embora haja um cemitério de vocábulos esquecidos. Porventura cada família acarinha uns tantos, numa adoção linguística que os vai mantendo vivos (o meu pai está a compilar um dicionário de palavras que a minha mãe usa, que as crianças não ouvem em mais lado nenhum, que já vêm das minhas avó e bisavó).

Mas a intervenção de Pedro Mexia, que como é seu costume vinha abundantemente munido de livros e citações, começou com um poema de Ruy Belo que ele leu na íntegra.

Oh as casas as casas as casas

Oh as casas as casas as casas
as casas nascem vivem e morrem
Enquanto vivas distinguem-se umas das outras
distinguem-se designadamente pelo cheiro
variam até de sala pra sala
As casas que eu fazia em pequeno
onde estarei eu hoje em pequeno?
Onde estarei aliás eu dos versos daqui a pouco?
Terei eu casa onde reter tudo isto
ou serei sempre somente esta instabilidade?
As casas essas parecem estáveis
mas são tão frágeis as pobres casas
Oh as casas as casas as casas
mudas testemunhas da vida
elas morrem não só ao ser demolidas
Elas morrem com a morte das pessoas
As casas de fora olham-nos pelas janelas
Não sabem nada de casas os construtores
os senhorios os procuradores
Os ricos vivem nos seus palácios
mas a casa dos pobres é todo o mundo
os pobres sim têm o conhecimento das casas
os pobres esses conhecem tudo
Eu amei as casas os recantos das casas
Visitei casas apalpei casas
Só as casas explicam que exista
uma palavra como intimidade
Sem casas não haveria ruas
as ruas onde passamos pelos outros
mas passamos principalmente por nós
Na casa nasci e hei-de morrer
na casa sofri convivi amei
na casa atravessei as estações
Respirei – ó vida simples problema de respiração
Oh as casas as casas as casas
Ruy Belo
Todos os Poemas
Lisboa, Assírio & Alvim, 2000

[Um parêntesis para comentar os escritos e as intervenções de Pedro Mexia. Parecem-me sempre ser o contrário da banalidade. Têm pouco ou nada a ver com modas, com o momento, com a febre do imediato. São intemporais, universais, não têm pressa nenhuma, são válidos agora e daqui a 20 anos. Há sempre informação substancial, factos, análises, nenhuma frase vã. Mas é um conhecimento que não se impõe, não intimida, não é ostensivo. Em todas as crónicas e conversas aprendo coisas que não sabia, sobre a literatura e os escritores, principalmente, mas também sobre cinema, teatro, música, política, história. Sendo ele uma figura, sem dúvida, um intelectual prestigiado e um cronista que não omite o eu, por vezes antes pelo contrário (no estilo diarístico que professa há uma obsessão com o eu) consegue uma coisa notável que é o apagamento da figura para fazer sobressair a informação, a análise, o poema, a obra.]

No final da conversa alguém do público lança uma pergunta entusiasmante. Há em todas as infâncias, ou deveria haver, uma figura mágica, uma espécie de bruxa ou feiticeiro, alguém que quebra a ordem das coisas e revela o poder da rebeldia, da transgressão. Tiveram uma figura assim? Quem foi?

Alexandre Quintanilha, com muita graça, mencionou uma mulher fantástica, uma biofísica com quase dois metros de altura (?!), que fumava um cachimbo de marfim. Como se isto não fosse suficiente, a senhora excedia-se quando bebia um bocadinho. Hilariante. (Isto contado pelo homem que, quando chegar aos 90, quer experimentar uma trip de LSD).

Os feiticeiros de Mexia eram os amigos do pai que iam lá a casa, senhores absolutamente circunspectos excepto quando discutiam literatura. Aí transfiguravam-se, tornavam-se extravagantes, adquiriam contornos desconhecidos. Foi logo aí que ele teve a intuição: a literatura é uma coisa muito séria.
Beijinhos a todas,

Céu

 

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Ser homem

por , em 30/1/16

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Queridas Senhoras,

no momento em que escrevo, este texto da Rita Marrafa de Carvalho vai em 1815 partilhas. O meu querido marido diz que ando muito feminista, que é um exagero, que ninguém me atura. Respondo-lhe que é preciso ser feminista todos os dias, falar continuamente destas questões. É um facto que comecei a dar mais atenção ao tema desde que me liguei às Capazes, o que me fez ter mais acesso e procurar outras fontes de informação que abordam temas feministas.

Até bastante tarde, não me recordo de pensar muito sobre estas questões. Certamente achava que era um assunto distante, que não tinha muito a ver com a minha vida. Pegando no texto da RMF, até aos 20 e tal anos as exigências não são muitas. Imaginemos um casal, em que ambos são sensatos e razoáveis, sem extremismos de espécie nenhuma. É relativamente fácil organizar uma vida em comum, dividir tarefas, gerir crises. É depois de chegarem os filhos que tudo se complica. As crianças exigem jantar na mesa, roupa lavada, horários certos, atenção, regras e uma vida organizada. Se antes dos filhos a divisão de tarefas pode ser motivo de piada e brincadeira, depois passa a ser “a” questão.

Enquanto corria esta manhã, comecei a pensar no texto da RMC e o que me ocorreu foi, tentando ver o outro lado, será que os homens não estão cada vez mais sujeitos ao mesmo tipo de exigências? Não se espera deles que sejam tudo e mais um par de botas?

Vejamos. Hoje espera-se que os homens sejam pais em pleno, desde o primeiro momento. Não só para mimos e brincadeiras mas para a dureza das noites em claro, das cólicas, das primeiras papas, dos vomitados, das doenças e todo esse mundo pouco encantado dos primeiros anos de vida. Isto é esperado, desejado e aceite. Mas quantos homens jovens, na casa dos 30, receiam usufruir de todas as licenças a que têm direito sob pena de serem olhados de lado pelo chefe e pelos colegas ou serem preteridos na sua evolução profissional? É como se fosse esperado que eles sejam bons pais, envolvidos, mas não demasiado.

Espera-se, naturalmente, que os homens saibam fazer tudo em casa, especialmente cozinhar, sobretudo cozinhar, até porque isso é tremendamente sexy e é claro que se espera que os homens sejam sexy. Bonitos, atléticos, cuidados. Mas não demasiado, não como aqueles maluquinhos do ginásio. Devem ser óptimos em tudo mas como se não se preocupassem muito com isso, como se fosse tudo um dom natural.

Se trabalham demais, são workaholics. Se não investem na carreira são pouco ambiciosos. Se estão com a mesma mulher há 20 anos são uns monogâmicos chatos. Se são solteiros e namoradeiros, são uns doidivanas que nunca mais assentam. Se não se cuidam, são desleixados. Mas em excesso são vaidosos. Se se dedicam muito à família são caseiros e paus-mandados. Se só querem borga com os amigos, são uns estroinas. Ser o Phil Dunphy ou o Hank Moody? Desde que sejam divertidos e românticos, mas não demasiado se não enjoa.

Isto não está fácil. Tanto as mulheres como os homens estão sujeitos a múltiplas exigências e julgamentos. Antes os homens só tinham que trabalhar e providenciar o sustento da família. As mulheres organizavam a vida familiar e doméstica. Hoje todos fazem tudo, o que é excelente. Mas como não se pode ser bom em tudo, andamos aflitos e às turras uns com os outros.

Desde que entrei para o Senhoras e, mais tarde, para as Capazes estou mais atenta a todas estas questões que afinal não são exclusivamente feministas. Dizem respeito à maneira como vivemos, como organizamos as nossas vidas familiares, como educamos as nossas crianças e como podemos ser mais felizes.

Beijinhos a todas,

Céu

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O herói inseguro

por , em 11/1/16

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Queridas Senhoras,

que prazer regressar ao universo de Charlie Brown. Nem eu sabia que gostava tanto mas quando soube que tinha saído o filme quis muito ir vê-lo com os miúdos. Não sou especialmente fã mas tinha uma sensação difusa de bem-estar e uma alegria melancólica ao pensar naquele mundo de crianças filosóficas e auto-suficientes onde os adultos são reduzidos a vozes monocórdicas e inexpressivas.

O filme (mesmo a versão portuguesa que ainda tem que ser por causa do João) permite o reencontro com esse universo nada datado pela simples razão de que aquelas situações são intemporais.

E que tem Charlie Brown para dizer aos miúdos de hoje? Que não faz mal ser inseguro, tosco ou desastrado. Que a insegurança é doce e não tem que ser paralisante. Que mais importante do que ter sucesso é ser bom, agir bem. Charlie Brown pode ser trapalhão, tímido, envergonhado. Mas não hesita um segundo quando se trata de fazer o bem (e o bem não se discute, é sempre bom). É corajoso, empenhado, discreto e amigo dos seus amigos. Querem melhor herói para os dias de hoje? Note-se que o rapaz é um empreendedor embora não com vista ao lucro pessoal mas ao enriquecimento espiritual dos que o rodeiam.

Charlie Brown não desiste. Seja a lançar papagaios de papel, a aprender a dançar, a ler o Guerra e Paz durante um fim-de-semana para escrever uma composição sobre “o melhor romance de sempre”. Charlie Brown atrapalha-se mas nunca duvida do que está certo: dizer a verdade, fazer o bem. Mesmo que isso implique abdicar dos holofotes, ceder o palco à irmã mais nova, à colega mais inteligente.

O mundo seria extremamente aborrecido e ruidoso se estivéssemos rodeados de fanfarrões e fala-barato. A delicadeza insegura de Charlie Brown é um bálsamo.

Beijinhos a todas,

Céu

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Estas casas são caiadas

por , em 14/12/15

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Alegrete, Portalegre

 

Queridas Senhoras,

Para os miúdos, “aldeia” é sobretudo a da Beira Alta, concelho da Guarda, a aldeia das casas de granito e do rio Mondego. Mas este fim-de-semana fomos conhecer a outra aldeia, a do Alto Alentejo, concelho de Portalegre, a tal cidade “cercada de serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros”. Fomos conhecer a origem das “antigas gentes” deste lado da família.

Há 80, 90 ou mais anos, na Beira Alta e no Alto Alentejo, nasciam aqueles de quem todos viríamos a nascer. Houve encontros e amor, o amor deu frutos, os frutos foram cuidados e é assim que tudo acontece. É um milagre e é bom saber como e onde tudo começou. É um milagre que haja encontros e amor e que o amor dê frutos e que os frutos sejam cuidados. Muito anos depois volta-se aos sítios e não se acredita no milagre. Parece que tudo foi feito para nós, para podermos mostrar aos filhos, olha o castelo, olha a igreja, olha a rua, olha a casa onde a avó morava. Eles vão leves e despreocupados mas nós sentimos um aperto, uma responsabilidade: seremos nós capazes de conservar, transmitir, fazer durar este património, acrescentando-lhe aquele que nos cabe construir? Andarão eles daqui a outra leva de anos com os filhos e os netos pela mão a mostrar-lhes os lugares dos encontros, do amor, dos frutos?

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Na Beira Alta as casas são escuras do granito. No Alto Alentejo, o da serra de São Mamede, do vento suão, do sol que abrasa, do frio que tolhe e gela, as casas são brancas e caiadas. Todas têm história, bons e maus cheiros, silêncios e espantos. Ao percorrê-las enche-se-nos a alma de coisas inexplicáveis. Coisas que temos pudor de contar seja a quem for.

Beijinhos a todas,

Céu

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Questionário ‘Ter 40′