A promessa

por , em 30/8/16

 

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Queridas Senhoras,

sei que me dão o desconto e já não estranham, que por esta altura do ano, chegue o meu relambório sentimental sobre a ida à aldeia. É todos os anos um bocadinho, tenham lá paciência. Falo sempre da paz e dos cheiros, de como quando estou à beira do rio não quero estar em mais lado nenhum, não estou a pensar no que vou fazer a seguir [o rio da minha aldeia não faz pensar em nada]. E que grande bem, que grande descanso, ter a cabeça onde o corpo está, tudo assim junto e quieto.

Se considerarmos que isto é uma viagem anual de descoberta, este ano avancei mais um pouco. Foi uma coisa fugaz, um vislumbre, a ver se ainda o consigo reproduzir por palavras, apesar desta neura de fim de férias.

Já aqui falei várias vezes do poder emotivo dos cheiros. Um cheiro comum, geral, que me diz que estou na aldeia, e os cheiros específicos, do rio, das ervas, das pedras no fundo do rio, da caruma no pinhal, dos barrocos, das casas, do pó da estrada.

Houve um momento estes dias, quando fui passear numa zona do rio que hoje já não é frequentada, mas que era para onde íamos quando eu era pequena, em que senti um cheiro tão intenso que me fez ouvir os risos e o chapinhar no local agora vazio e cheio de mato.

Era cedo, não havia ninguém, mas o céu inteiramente azul e o sol forte já abençoavam as margens do Mondego. E então senti o cheiro e num segundo percebi o que era e isso fez-me chorar, ali, naquele instante.

Era uma sensação de profundo bem-estar e segurança misturado com excitação, entusiasmo, promessa de coisas boas e inesperadas. Não sabemos o que vai acontecer mas sabemos que vai ser bom. Tal como a rede que estendíamos entre duas árvores, havia o balanço suave dos dias, seguro e protegido, mas também largo e emocionante.

Hoje procuramos sobretudo evitar chatices. É assim que vivemos. Isto pareceu-me de repente muito triste, viver só a escapar de chatices. Mas depois pensei que os meus filhos devem estar agora a descobrir esse mesmo cheiro, ainda sem saber o que é. Entusiasmo, gozo, promessa, aventura. E tive inveja deles.

Beijinhos a todas,

Céu

 

 

 

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Primavera alentejana

por , em 13/3/16

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Queridas Senhoras,

muito se tem escrito estes dias sobre o Alentejo. À conta do livro do Henrique Raposo, têm saído crónicas e artigos de todo o género, incluindo turísticos. Não sei se tudo isto foi uma bem orquestrada acção dirigida pelo Turismo do Alentejo que também acaba de lançar uma nova campanha. O resultado foi que me deu uma tremenda vontade de um fim-de-semana alentejano, com os clichés todos dos folhetos. O silêncio, a calma, os horizontes infinitos e quietos, a gastronomia, os vinhos e, sobretudo, não sei já disse, o silêncio, a calma.

(A última incursão à região tinha sido em Dezembro, quando andámos pelo Alto Alentejo à procura das raízes. E antes disso houve um passeio pela fronteira entre o Ribatejo e o Alentejo).

Por causa de um artigo da Evasões, tive o impulso de marcar mesa na Taberna do Arrufa em Cuba. E tudo por causa de um quintal. Uma antiga taberna esquecida foi recuperada, blá, blá, blá, o costume, mas havia um quintal. Tive a visão de um almoço num quintal rústico inundado de sol. Desejei o entorpecimento do calor, da comida, do vinho, da terra e dos campos. E assim foi.

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Para condizer com o quintal descobri um hotel com quinta pedagógica (Hotel O Gato, em Odivelas, Ferreira do Alentejo). A Paula, quando ler isto, vai rir-se de mim. Ela iria achar o hotel um pouco rústico e antiquado mas quem precisa de spa, jacuzzi e outras mordomias quando há um bode por perto? Sim, Paula, encontrei um hotel com ovelhas, patos, galinhas, cabras e um bode. Penso que esta originalidade será difícil de bater.

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De manhãzinha, como é habitual esteja eu onde estiver, fiz a minha corrida. Oito quilómetros, ida e volta, até à barragem de Odivelas na tranquilidade absoluta dos campos às oito da manhã. Julgo que o bode ainda estava a dormir.

Depois do pequeno-almoço regressamos todos para usufruir da zona de lazer da barragem onde somos os únicos veraneantes. Silêncio, calma, horizontes a perder de vista.

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De Odivelas para o Torrão, serpenteamos pela Nacional 2 sem nos cruzarmos praticamente com  nenhum veículo. Silêncio, tranquilidade, campos floridos. Os clichés todinhos. Atravessamos a aprazível vila do Torrão (duas albufeiras a visitar por aqui: Vale do Gaio e Pego do Altar) a caminho do destino de almoço, Alcácer do Sal. Vieram umas amêijoas, com o Sado ali ao pé.

Subimos ao Castelo/Pousada onde visitámos o museu da cripta arqueológica e assistimos a um breve filme sobre a longa história desta belíssima terra, antiga Salácia (entre outros nomes), por onde passaram romanos, visigodos, mouros e outros povos (aula de História ao vivo para os miúdos).

Terminámos o passeio a olhar o Sado e o perfil de Alcácer visto das muralhas. Adeus, Alentejo, até ao próximo passeio!

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Beijinhos a todas,

 

Céu

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Na Moita

por , em 16/1/16

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Queridas Senhoras,

continuamos a perseguir o nosso objectivo de conhecer melhor as terras da margem sul. Depois da coroa de glória que foi o passeio ao Samouco, depois da agitação trendy de Cacilhas, conquistámos uma nova meta e é com orgulho que digo: Paula, fui à Moita!

Com o dia magnífico de sol e céu azul estava mesmo a apetecer espairecer junto ao rio (o plano era ir ao Barreiro!, mas um imprevisto trocou-nos as voltas e lembrei-me logo da Moita).

O primeiro obstáculo, sempre, é convencer os miúdos a sair de casa. Não sei se há por aí muita gente a passar pelo mesmo mas nós travamos verdadeiras lutas para conseguir que eles saiam de casa e apanhem sol naquelas trombinhas. A Alice acaba por se deixar convencer se houver no horizonte a promessa de uma boa refeição. Quanto ao João, a telha costuma passar-lhe no primeiro parque infantil. Mas há guerra, minhas senhoras, há guerra. Tudo aquilo que propomos de bom e saudável (conhecer outras terras, ver paisagens, passear junto ao rio, apanhar sol e ar fresco), é basicamente recebido com amuos e gritos.

Mas vamos ao passeio, a bem ou a mal. A Moita é linda! Começamos por descobrir a Praia Fluvial do Rosário, serena e pitoresca, equipada com parque de merendas, e junto a uma bonita capela. Os mariscadores andam no Tejo. O aprazível cenário foi aproveitado para instalar aquele que deve ser um dos melhores restaurantes da região.

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O Baía Tejo parece fantástico e deve ser porque tinha uma afluência generosa, muitas famílias, muitos grupos, num corrupio calmo de gente em passeio de fim-de-semana

Como tínhamos em vista um sítio mais simples e descontraído, optámos pelo excelente O Batelão, a pouca distância da praia. Felizmente acertámos. A Alice baixou a guarda mal lhe puseram à frente o pão caseiro de miolo fresco e a manteiga. Havia de regalar-se depois com os lombinhos de porco com batata frita fininha e nós com o arroz de marisco (Paula, O Batelão, não te esqueças!, tem para lá caldeiradas e ensopados que é um gosto).

Depois do almoço regressamos à praia que está agora cheia de gente em passeio. Há muito por onde caminhar, há uma ciclovia e percursos junto ao rio. Nas imediações fica o centro de interpretação ambiental Sítio das Marinhas (não visitámos) que ajuda a contextualizar e a perceber melhor as características desta paisagem.

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Por fim, fomos conhecer a zona ribeirinha da Moita onde está atracado o famoso Boa Viagem (lembras-te, Paula?), o varino que entre Junho e Outubro navega no Tejo em passeios turísticos.

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Naturalmente, os miúdos estão a borrifar-se para tudo. Para o Tejo, para os barcos, para a paisagem, para o sol. Mas, filhos da mãe, talvez no fundo aproveitem alguma coisa.

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Beijinhos a todas,

 

Céu

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Estas casas são caiadas

por , em 14/12/15

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Alegrete, Portalegre

 

Queridas Senhoras,

Para os miúdos, “aldeia” é sobretudo a da Beira Alta, concelho da Guarda, a aldeia das casas de granito e do rio Mondego. Mas este fim-de-semana fomos conhecer a outra aldeia, a do Alto Alentejo, concelho de Portalegre, a tal cidade “cercada de serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros”. Fomos conhecer a origem das “antigas gentes” deste lado da família.

Há 80, 90 ou mais anos, na Beira Alta e no Alto Alentejo, nasciam aqueles de quem todos viríamos a nascer. Houve encontros e amor, o amor deu frutos, os frutos foram cuidados e é assim que tudo acontece. É um milagre e é bom saber como e onde tudo começou. É um milagre que haja encontros e amor e que o amor dê frutos e que os frutos sejam cuidados. Muito anos depois volta-se aos sítios e não se acredita no milagre. Parece que tudo foi feito para nós, para podermos mostrar aos filhos, olha o castelo, olha a igreja, olha a rua, olha a casa onde a avó morava. Eles vão leves e despreocupados mas nós sentimos um aperto, uma responsabilidade: seremos nós capazes de conservar, transmitir, fazer durar este património, acrescentando-lhe aquele que nos cabe construir? Andarão eles daqui a outra leva de anos com os filhos e os netos pela mão a mostrar-lhes os lugares dos encontros, do amor, dos frutos?

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Na Beira Alta as casas são escuras do granito. No Alto Alentejo, o da serra de São Mamede, do vento suão, do sol que abrasa, do frio que tolhe e gela, as casas são brancas e caiadas. Todas têm história, bons e maus cheiros, silêncios e espantos. Ao percorrê-las enche-se-nos a alma de coisas inexplicáveis. Coisas que temos pudor de contar seja a quem for.

Beijinhos a todas,

Céu

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Vale do Mondego

por , em 31/8/15

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Queridas Senhoras,

apresento-vos a Quinta do Seixo – Turismo de Natureza, em pleno Vale do Mondego. Este ano, como é habitual, despedimo-nos das férias com uma ida à terra. Mas em vez de ficarmos alojados na Guarda (cidade), optámos por um alojamento rural nas proximidades da aldeia.

Quem desce da Guarda pela EN16, vai percorrer um troço sobranceiro ao Vale do Mondego, um itinerário pouco referenciado mas com muitos atractivos. Em casa de ferreiro, espeto de pau: eu própria não conheço a zona a fundo, vou por poucos dias e não costumo afastar-me muito da aldeia. Pesquisando, também não se encontra muita informação, roteiros sistematizados que expliquem a riqueza do território. Este artigo do Público é um dos raros que explora o potencial turístico do Vale do Mondego.

A 12 km da Guarda, a Quinta do Seixo é um lugar privilegiado para perceber a maravilha que isto é (assim como a Quinta do Moinho, motivo de reportagem do referido artigo). Em plena serra, é uma antiga propriedade agrícola (que ainda mantém alguma produção), ficando os hóspedes alojados em boas casas de granito, tipicamente beirãs. Eu sou suspeita, é certo. Ali, não me sinto turista, sinto-me em casa. À vista daquelas pedras, fico logo em paz. Cada artefacto ou alfaia, cada barroco, cada oliveira, tudo me é familiar e querido. Mas a Quinta do Seixo superou as nossas melhores expectativas. No conforto e na decoração dos interiores e nos arranjos do exterior, com vários recantos para estar, fazer as refeições, usufruir da paisagem, ouvir os grilos e ver a lua gigante.

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A praia fluvial de Aldeia Viçosa (época aberta até 15 de Setembro e, eventualmente, em mais dias bons depois disso) está apenas a 1 km, após uma descida acentuada. À volta, há várias quintas e belos solares, alguns adaptados também ao turismo (aqui e aqui, por exemplo). Mas o mais que se vê são rebanhos de ovelhas e cabras. O que se ouve é o ladrar ocasional dos cães das quintas. No cruzamento antes da praia, voltando à direita, há uma estrada (perfeita para uma corrida) que leva ao Porto da Carne, Vila Cortês, Cavadoude e outras aldeias a merecer visita. Virando à esquerda, pomo-nos a caminho da Faia, Mizarela, Pêro Soares, Vila Soeiro. Existem igualmente trilhos pedestres assinalados.

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Garantido está o ar puro da serra, o silêncio, o sossego e, sendo Verão, um mergulho nas águas do Mondego ao fim da caminhada. E um pão centeio estaladiço para recompor o estômago. O padeiro costuma passar ao adro às dez da manhã.

Beijinhos a todas!

Céu

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Queridas Senhoras,

ideia para um guia: “25 fins-de-semana a menos de 120 km de Lisboa”. Sim, há muita informação, muitos sites e revistas, mas quantas vezes não sabemos para onde ir ou parece que os locais são sempre os mesmos? Ou as praias ou as principais cidades com património, como Coimbra ou Évora. Então e o resto?

Este fim-de-semana andámos pelo Ribatejo e pelo Alentejo, a pouco mais de 100 km de Lisboa. Saímos sábado de manhã em direcção a Coruche. Chegamos e aterramos na magnífica esplanada Del Rio, posta em sossego à beira do rio Sorraia. A zona ribeirinha de Coruche está uma beleza. Há caminhos pedonais para apreciar as margens do rio e a partir dali saem dois trilhos pedestres que dão a conhecer as paisagens desta terra de pontes, açudes e arrozais.

Destino para o almoço: o restaurante Maia, no Couço. O prato forte são as carnes e os lombinhos de porco estão de chorar, de tão suculentos e saborosos. Arroz doce e pudim de café para sobremesa, um cigarro à sombra no largo de igreja e siga para a próxima paragem, a aldeia de Brotas.

Cruzamos a fronteira para o Alentejo, entrando no concelho de Mora, distrito de Évora. Brotas está perto e lá que ficam as Casas de Romaria, um turismo de aldeia que recuperou sete casas junto ao bonito Santuário de Nossa Senhora de Brotas. A aldeia é um primor de casinhas brancas e a D. Maria do Rosário é a mais afável e disponível das anfitriãs. É ela que nos faz uma visita guiada à igreja, associada a uma lenda engraçada e com belos frescos.

A nossa casinha alentejana é um verdadeiro encanto, composta pelo piso térreo com sala e cozinha, dois quartos no primeiro andar e ainda um sótão com um quartinho e terraço. Tudo com decoração típica, simples e aprumada. As casas, bem como os espaços comuns, são chamadas de “confrarias” (em homenagem às confrarias religiosas que vinham prestar devoção a Nossa Senhora de Brotas). A Confraria da Água tem uma pequena mas adorável piscina com vista para o santuário.

Ainda na tarde de sábado, vamos dar um mergulho ao Parque Ecológico do Gameiro, junto ao Fluviário de Mora (que já visitámos noutra ocasião). A praia fluvial (açude do Gameiro, do rio Raia) está muito bem arranjada, tem sombras, esplanada e parque infantil. O maior atractivo é o passadiço de madeira (na foto) ao longo da margem do rio, um percurso idílico, de 1,5 km, pontuado por placas informativas acerca da flora e fauna do local.

Para jantar regressamos a Brotas, onde o restaurante O Poço assegura a parte gastronómica da estadia. Sopa alentejana e migas de espargos com entrecosto valem uma boa caminhada nocturna pela aldeia.

Dia seguinte: depois do pequeno-almoço na Confraria do Cabeção (e a seguir à missa dominical que fui espreitar), partimos para a albufeira de Montargil. Paramos junto ao parque de campismo (onde acampámos há mais de 20 anos) para um mergulho sob a ameaça de chuva. Para o almoço (sopa de cação e bochechas de porco) rumamos a Ponte de Sor onde voltamos a encontrar uma zona ribeirinha apetecível, desta feita nas margens da ribeira de Sor.

E aqui está um fim-de-semana a pouco mais de 100 km de Lisboa que foge aos roteiros habituais.

Beijinhos a todas,

Céu

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Questionário ‘Ter 40′