Albertina

por , em 14/7/16

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Queridas Senhoras,

de Lisboa para o Furadouro (Ovar), mergulhei na segunda-longa metragem de Paulo Rocha. Mudar de Vida (1966) passou na última sexta-feira, 8 de Julho, integrado no ciclo que a RTP2 está a dedicar ao realizador.

Depois de Os Verdes Anos, fiquei apaixonada pela Isabel Ruth e estava desejosa de vê-la neste filme. Mas a personagem dela, bela e intensa, só entra lá para o meio. De início é Júlia (Maria Barroso), o seu exacto oposto, quem preenche o ecrã juntamente com Adelino (Geraldo Del Rey), o improvável galã do Furadouro (notável a parecença com Alain Delon).

Numa penada: Adelino voltou do Ultramar para encontrar a antiga namorada casada com o irmão e com dois filhos postos no mundo. Desgraça. Tragédia. Amargura. Arrependimento. Inevitabilidade. Júlia arca com todo este peso sobre as costas, habituadas a vergarem-se ao trabalho impiedoso no areal do Furadouro.

Adelino regressou para nada, para o nada. Já não pertence aqui. A namorada é de outro, os filhos são de outro e nem para o trabalho no mar serve, já que veio da guerra com um problema de espinha que o deixa inapto para cargas pesadas. E tudo o que aqui há são cargas pesadas, asfixiantes, uma comunidade piscatória claustrofóbica e sem horizontes. Já nesse tempo o mar não dava, já não havia peixe. É então que surge a bela Albertina, assaltando a caixa de esmolas da capela, fugindo, correndo, libertando-se.

Como Ilda, esta Albertina é uma força da natureza. Menos inocente, mais marcada pela vida, mas aqueles olhos… estou presa aos olhos de Isabel Ruth.

 

Beijinhos a todas,

Céu

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Queridas Senhoras,

Deusas em Fúria é um filme de raparigas e a sinopse tem semelhanças com a de uma dessas comédias dramáticas ligeiras, de catarse feminina (ou masculina): um grupo de amigas junta-se para uma espécie de despedida de solteira em casa da noiva, em Goa (a casa do pai, já agora, que faz questão de manter o ambiente português, é referido às tantas). Para além desta premissa, outra coisa que torna o filme ligeiro é o facto haver muitas cenas tipo videoclip: amigas a dançar, amigas a chapinhar à beira-mar em contraluz, amigas a passear de jipe, de braços no ar, amigas no SPA, amigas a comer, a beber e a brindar. Raparigas como nós.

A diferença está na história de cada uma delas, oriundas de várias cidades da Índia, e representantes da mulher moderna numa sociedade que tem sérias dificuldades em lidar com a emancipação feminina, onde a subjugação da mulher está tão enraizada que a violação, mais do que tolerada, parece ser legitimada (a estatística citada é a de uma violação a cada vinte minutos).

Frieda, a noiva, é fotógrafa de moda. Há a empresária de sucesso, a actriz que luta contra os estereótipos de Bollywood, a cantora de bar à procura do próximo sucesso, a esposa perfeita que quer o divórcio, a actvista revolucionária, a empregada doméstica que não se submete. Para completar o ramalhete, ainda temos uma avó centenária que entra em cavalarias com as raparigas e, na outra ponta, uma menina de seis anos que anda por ali a documentar tudo com o iPhone da mãe.

Todas e cada uma destas mulheres se revoltam contra uma sociedade patriarcal, machista e misógina, que idolatra as deusas mas espezinha as mulheres. Curioso é que os pequenos detalhes com que o filme abre, mostrando as situações de misoginia que cada uma vive, podiam acontecer aqui mesmo. É o piropo porco no ginásio, é o realizador no set de filmagens que pede mais abanar de ancas e de rabo, é o ataque verbal no meio na rua, é a humilhação em contexto profissional. Mais tarde, todas serão apontadas pela polícia por beberem na praia em trajes impróprios, ou seja, calções e t-shirt.

Deusas em Fúria é um filme com o qual facilmente nos identificamos, não tanto pelo girl-bonding como pelo ataque à condição feminina.

Beijinhos a todas,

Céu

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O fastio de ser mulher

por , em 5/7/16

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Queridas Senhoras,

a RTP2 está a dedicar um ciclo a Paulo Rocha durante as sextas-feiras de Julho. Quero aproveitar a oportunidade para conhecer a obra deste realizador fundamental no cinema português e comecei com Os Verdes Anos (1963), obra considerada fundadora de um novo cinema, que veio a fazer escola e a ser citado em vários filmes posteriores de outros realizadores.

O filme é belíssimo e desolador, acompanhando os passeios de Ilda e Júlio pela Lisboa dos anos 60, entre os ambientes burgueses da Avenida de Roma (Ilda é criada de servir) e os arrabaldes campestres onde o aprendiz de sapateiro Júlio vive com o tio. A guitarra de Carlos Paredes entoa e sublinha estas deambulações de forma pungente, dolorosa.

Gostaria de focar-me na personagem de Ilda (Isabel Ruth) que surge magnífica e esperançosa, como o prenúncio de um novo tempo, de uma nova mulher, no meio de todo aquele atavismo, o peso da tradição, a amargura, a ancestralidade. Ilda é alegre e feliz, está decidida a não ser para sempre criada de servir. Se ao menos não lhe tivesse morrido a mãe… Mas se não é de uma maneira, é de outra, diz ela às tantas, decidida, afoita, rapariga que se faz à vida. Quer estabelecer-se como costureira, tem habilidade e está disposta a empreender. Tem sede de viver esta Ilda, mas Júlio há-de trocar-lhe as voltas.

É irónico e amargo que um dos filmes basilares do cinema português reproduza a tragédia da violência do homem português sobre a mulher portuguesa. A doença do controlo e da posse. Júlio veio da aldeia e não encontra o seu lugar na cidade. Não pertence a lado nenhuma. Tem umas ideias de ir para o estrangeiro mas é uma aspiração vaga. Está aturdido, encurralado, não encaixa nos ambientes, não sabe respirar. Tenta acompanhar Ilda nos passeios de domingo, chegam a ir dançar numa matiné. Ilda é atrevida, esteve a experimentar as roupas da patroa, até uns calções mínimos que lhe ficam a matar. E depois vai dançar, rodopia livre na sala, o rock n’ roll toca no gira-discos. Mas Júlio não acerta o passo. Nunca há-de acertar o passo e é Ilda quem vai pagar por isso.

A jovem e destemida Ilda, tão livre, tão solta, tão cheia de vida, deixa cair apenas um desabafo:

“Às vezes dá-me um fastio ser mulher…”
Beijinhos a todas,

Céu

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Sexo para todos

por , em 13/6/16

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Queridas Senhoras,

julgo que não há memória deste blogue chamar o sexo para a capa pelo que não podemos ser acusadas de usar truques baixos para vender posts. Além disso, isto é um blogue familiar, lido inclusive por crianças (pelo menos uma, a minha filha!) pelo que também não receiem que este texto vá contra os princípios do decoro ou ultrapasse os limites da decência.

Está em cartaz um filmezinho  descrito como “comédia erótica”, o que à partida não augura nada de bom. A comédia já é um caso sério ainda para mais de contornos erótico-sexuais. O termo remete-me para cenas tão embaraçosas como a série Com jeito vai, no original Carry On (se não se lembram, melhor para vocês), piadas escabrosas de filmes de adolescentes de American Pye para baixo e, de forma vaga, uns filmes hippies dos anos 70 passados em praias e colónias de nudistas (???).

Foi, pois, bastante desconfiada e céptica quanto às potencialidades de uma comédia erótico-sexual que me dirigi à sala de cinema (coisa cada vez mais rara) para assistir a um obscuro filme espanhol intitulado Kiki, El Amor se Hace (em português, Desejos, o Amor Faz-se), de Paco Léon.

Como é quase impossível ver filmes espanhóis sem pensar em Almodôvar, essa é a primeira referência que salta à vista, nesta trama de casais às voltas com as suas dificuldades sexuais num Verão quente e festivo.

Em concreto, o tema do filme são as parafilias sexuais o que acentua o perigo de tudo descambar depressa numa idiotice pegada. A surpresa é que a coisa se aguenta e chega a ter grandes momentos.

O enredo trata desde os casos mais comezinhos aos mais estranhos, isto se aferirmos os comportamentos por uma pretensa normalidade e respectivos desvios à norma.

Temos o clássico casal a braços com a monotonia sexual que consulta um terapeuta para procurar pistas de salvação (ele diz que ela não sabe fazer fellatios, ela diz que ele é uma “máquina com pila” para quem os preliminares são território desconhecido). Uma senhora casada tenta engravidar há dois anos, fazendo sexo em todas as datas certas (e algumas extra) terminando sempre com as pernas para cima. Até que descobre que ter orgasmos ajuda e o que a ajuda a ela é ver o marido chorar. Outro homem casado põe gotas no chá da mulher para ela dormir que nem uma pedra e ele poder desfrutar dela durante a noite (sim, isto está a ficar estranho; aliás, este caso é bastante estúpido porque implica sexo sem consentimento e sem conhecimento, fugindo à regra de um enredo que se mantém num registo são e divertido). Há ainda uma moça solteira, surda, com um fétiche por tecidos bons; uma rapariga que vende cuecas usadas (as suas) para ter dinheiro de bolso; uma moça casadoira com um historial de parafilias na família que sente extremo prazer em situações de perigo e cuja irmã é doida por plantas. Etc. Etc.

O filme cuida bem de toda esta gente, das suas taras e manias, e segura as pontas do bom gosto e do bom senso, nunca resvalando para a idiotice mas naturalmente tocando em assuntos de natureza mais escabrosa ou escatológica que me reprimo de mencionar aqui (em nome do tal decoro e ressalvando a possibilidade de a Alice chegar mesmo a ler isto e de eu ficar com muito para explicar). Sem surpresas, tudo acaba bem até porque esta é uma película estival, alegre e bem-disposta.

Se não chegarem a ver o filme, arranjem maneira de ver o gag mais hilariante: uma chamada erótica intermediada em linguagem gestual.

Beijinhos a todas!

Céu

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Queridas Senhoras,

sei que li The Great Gatsby na escola mas não tenho grande memória do livro. Ou foi mal lido ou não chegou na altura certa. Também nunca tinha visto nenhuma adaptação para televisão ou cinema. A ideia vaga que tinha da história, das personagens, é aquela que resulta das múltiplas referências que os grandes romances sempre suscitam. Nick Carraway, Tom e Daisy Buchanan, the green light, a baía, as festas loucas, um amor perigoso… de tudo isto tinha ressonâncias mas não a história completa.

Não seria a primeira vez que um filme me faz ir à procura do livro (aconteceu há pouco tempo com Anna Karenina) ou que um clássico me chega tardiamente (aconteceu há pouco tempo com A catcher in a rye). A falta de assiduidade às salas de cinema também me leva a perder muitos filmes mas às vezes recupero alguns. O Grande Gatsby de Baz Luhrmann passou na RTP este domingo. Para mim foi uma extraordinária surpresa.

O filme é de 2013 e, numa pesquisa rápida, percebi que a crítica não foi unânime, tendendo mais para a demolição. No entanto, de uma forma geral, foi considerado literariamente bastante fiel, no que se refere aos diálogos e descrições. (Algumas citações aqui. Pessoalmente, gosto muito desta: “And I like large parties. They’re so intimate. At small parties there isn’t any privacy.”)

Não sou especialmente fã do estilo artificioso, espectacular e fantasista que é marca deste realizador mas fiquei rendida à estética deste Gatsby.

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Leonardo DiCaprio (nunca há-de ter cara de homem, este rapaz, nem quando estiver cheiinho de rugas) é um magnético e terno Gatsby, personagem-mistério no centro de uma fantasia louca, exagerada, transbordante. A luz e a cor são um exagero, assim como a bebida, a velocidade, a música, a dança.

Se DiCaprio parece um miúdo, Tobey Maguire (Nick Carraway, primo da amada Daisy e narrador) é um bebé chorão. (Também pode ser que isto seja eu a ficar velha e achar todos muito jovens). É ele, Nick, vizinho de Gatsby, que nos conduz através deste sonho doido, de um e de outro lado da baía, em Long Island, onde Gatsby ergueu um castelo para o qual espera atrair a sua princesa, Daisy, que esvoaça por trás da luz verde ao fundo do ancoradouro.

Naturalmente há-de acabar tudo em tragédia. Uma tragédia bastante vã, pointless, como parecem ser as vidas loucas que atravessam o breve e intenso romance. Uma nota refrescante é que, por uma vez, não é a mulher que morre ou se mata!

Beijinhos a todas,

Céu

 

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Mal-empregado

por , em 1/5/16

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Queridas Senhoras,

neste Dia da Mãe e do Trabalhador, apresento-vos Thierry, o desempregado, protagonista do filme A Lei do Mercado, de Stéphane Brizé, que oportunamente estreou esta semana (devem ser as leis do mercado).

Um filme seco, esquemático, num registo quase documental, que se desenvolve por quadros. Thierry no centro de emprego. Thierry numa reunião com os antigos colegas da fábrica que fez um despedimento colectivo. Thierry em aulas de formação que trabalham a linguagem corporal e a atitude. Thierry numa entrevista de emprego via skype. Thierry a pedir um empréstimo ao banco. Thierry com a mulher nas aulas de dança. Thierry a dar banho e a vestir o filho deficiente. Thierry a negociar um preço abaixo do valor de mercado para vender a caravana onde passa férias. Thierry a limpar o topo dos armários da cozinha.

Thierry já passou dos cinquenta, está desempregado há vários meses e o subsídio vai baixar. Ao técnico do centro de emprego ele sugere que não mandem as pessoas fazer cursos de formação inúteis. “Tratem bem as pessoas”, diz ele. E pergunta como é que poderá viver com 500 euros.

Thierry consegue um emprego como segurança num hipermercado. Tem de fazer a vigilância para detectar eventuais roubos, quer por parte dos clientes, quer dos funcionários. Um velhote é apanhado com carne no bolso. É conduzido pela segurança ao cubículo de paredes brancas onde estas questões são tratadas. Basta pagar e a coisa fica por ali. Mas o velho não tem dinheiro para pagar a carne. Comam menos bifes, já dizia a outra.

O hipermercado, esse local de fantásticas promoções, onde todos nos dirigimos com os cupões de desconto à mão e aguardamos ordeiramente na fila para aproveitar os fabulosos preços baixos. Conseguidos à custa do esmagamento dos produtores, logo dos trabalhadores, logo dos consumidores que somos nós todos. [ Fantásticas promoções, imbatíveis, só hoje, 1º de Maio, no Pingo Doce.]

Thierry nunca aparece a beber uma cerveja, a coçar os tomates, a ter um gesto de enfado ou desistência. Via skype dizem-lhe que o CV podia estar mais bem redigido e que as hipóteses de conseguir o emprego são ínfimas. Há muita gente a dizer-lhe “vou ser directo”.

Costuma dizer-se que os mercados não têm rosto. Se tivessem, não conseguiriam olhar de frente homens e mulheres como Thierry.

Beijinhos a todas,

Céu

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Questionário ‘Ter 40′