O herói inseguro

por , em 11/1/16

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Queridas Senhoras,

que prazer regressar ao universo de Charlie Brown. Nem eu sabia que gostava tanto mas quando soube que tinha saído o filme quis muito ir vê-lo com os miúdos. Não sou especialmente fã mas tinha uma sensação difusa de bem-estar e uma alegria melancólica ao pensar naquele mundo de crianças filosóficas e auto-suficientes onde os adultos são reduzidos a vozes monocórdicas e inexpressivas.

O filme (mesmo a versão portuguesa que ainda tem que ser por causa do João) permite o reencontro com esse universo nada datado pela simples razão de que aquelas situações são intemporais.

E que tem Charlie Brown para dizer aos miúdos de hoje? Que não faz mal ser inseguro, tosco ou desastrado. Que a insegurança é doce e não tem que ser paralisante. Que mais importante do que ter sucesso é ser bom, agir bem. Charlie Brown pode ser trapalhão, tímido, envergonhado. Mas não hesita um segundo quando se trata de fazer o bem (e o bem não se discute, é sempre bom). É corajoso, empenhado, discreto e amigo dos seus amigos. Querem melhor herói para os dias de hoje? Note-se que o rapaz é um empreendedor embora não com vista ao lucro pessoal mas ao enriquecimento espiritual dos que o rodeiam.

Charlie Brown não desiste. Seja a lançar papagaios de papel, a aprender a dançar, a ler o Guerra e Paz durante um fim-de-semana para escrever uma composição sobre “o melhor romance de sempre”. Charlie Brown atrapalha-se mas nunca duvida do que está certo: dizer a verdade, fazer o bem. Mesmo que isso implique abdicar dos holofotes, ceder o palco à irmã mais nova, à colega mais inteligente.

O mundo seria extremamente aborrecido e ruidoso se estivéssemos rodeados de fanfarrões e fala-barato. A delicadeza insegura de Charlie Brown é um bálsamo.

Beijinhos a todas,

Céu

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Em caso de perigo

por , em 10/5/15

 

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Queridas Senhoras,

quem são estes dois estranhos que lavam os dentes eficientemente, com escovas de dentes mecânicas? É um cliché dizer que, com o passar do tempo, marido e mulher podem tornar-se dois estranhos. No caso de Tomas e Ebba isso é uma grande ironia. Eles tornam-se estranhos de um momento para o outro. Um momento terrível, verdadeiramente sinistro, quase inumano. Fala-se de natureza humana a propósito deste filme mas, confesso, achei que a premissa de Força Maior raia a inverosimilhança.

Tinha lido sobre o filme, sabia o que esperar, mas a cena que desencadeia tudo o resto é quase ridícula de tão absurda. Foi o que senti. Digo do que se trata, para quem não está a par (não é spoiler, todas as sinopses o referem).

Uma família, pai, mãe, dois filhos, passa férias na neve, numa estância de esqui. Quando estão a almoçar na varanda panorâmica, assistem a uma avalanche que parece inicialmente um fenómeno controlado. Quando a massa de neve se avoluma, ameaçadora, em direcção ao restaurante, o pânico instala-se, as pessoas gritam. Na confusão, a mãe abraça os filhos, o rapaz grita “Papá!”. E o pai pega no telemóvel e foge. É tão absurdo como isto. (Mas não insistirei mais neste ponto).

O que acontece a seguir? Isto é, o que se passa em duas horas de filme? A família prossegue as férias. Afinal o plano era aproveitar cinco dias para Tomas se dedicar inteiramente à família (a ironia é tão aguda quanto isso).

A magnífica estância de esqui, cheia de mecanismos e automatismos, de ambientes assépticos e fenómenos controlados, continua a funcionar imperturbavelmente. É neste cenário que o drama da sobrevivência da família enquanto tal se irá desenrolar. Tomas há-de reconhecer que é o pior dos homens. Ele admite que mente, foi infiel, fez batota a jogar com os filhos, vê lá como sou patético. Mas fugir? Abandonar os filhos em perigo? Que coisa é que faz isto?

A certa altura, num momento de male-bonding com um amigo no bar, uma rapariga aproxima-se e diz-lhe que a amiga manda dizer que ele é o tipo mais giro do bar. Pouco depois, volta a aproximar-se. Afinal foi engano, não era para ele que a amiga estava a apontar, desculpe lá. A ironia é tramada. Tomas já nem sequer é o tipo mais giro do bar. O que lhe resta como reduto de masculinidade? Emborcar cerveja aos berros?

O filme sucede-se em quadros fixos, esquemáticos, rigorosos. Intercalados com angustiantes panorâmicas da neve, da beleza da paisagem. Que raio de sítio, é o que vos digo.

Este é um filme de terror.

Beijinhos a todas,

Céu

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Queridas Senhoras,

a Alice não gosta de filmes de amor. Mas hoje enganei-a bem. Segundo e último filme da Monstra 2015: Jack e a Mecânica do Coração, do francês Mathias Malzieu, também autor do livro que deu origem ao filme. E da banda sonora. A sessão contou com a presença do realizador/escritor/músico a apresentar este “sonho de infância” tornado realidade, uma das sete longas em competição nesta edição da Monstra.

Cenário da história: numa Edimburgo gelada, no final do séc. XIX, uma mulher dá a luz um menino que nasce no dia mais frio de sempre. A parteira/bruxa local salva-o, substituindo o seu coração de gelo por um relógio de cuco. Por fuga da mãe, cria-o depois como se fosse seu filho e vai repetindo as três regras sagradas: não tocar nos ponteiros do relógio, controlar as emoções e, muito importante, nunca se apaixonar.

Quando Jack completa 10 anos e desce pela primeira vez à cidade, o seu coração sofre o primeiro embate ao escutar o delicado canto de Acacia, uma menina tão suave e com um nariz tão pequeno que não se entende como respira.

Mecânico ou não, o coração de Jack foi atingido e ele nunca mais será o mesmo. De Edimburgo partirá para a Andaluzia em busca da sua amada, acompanhado pelo ilusionista e cineasta George Méliès, lui même.

Jack e a Mecânica do Coração tem um bocadinho de Moulin Rouge, muito de Tim Burton (coração mecânico ou mãos de tesoura, vai tudo dar ao mesmo) e vários videoclips, uns alucinantes, como a viagem no comboio fantasma, outros melancólicos, românticos, trágicos, negros. A banda sonora vai do rock ao flamenco e nunca num filme infantil gostei tanto dos momentos musicais.

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Desconfio também que o filme não é infantil. Mas não digam nada à Alice. Além disso estava na programação da Monstrinha, não enganei ninguém. Só forcei um bocadinho, pronto.

Fiquem com Jack e Acacia:

https://www.youtube.com/watch?v=kJgDWhWmKV4

Beijinhos a todas,

Céu

P.S. Tive muita dificuldade em escolher as imagens porque são todas muito bonitas. Querem ver?

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O lobby da comédia

por , em 22/2/15

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Queridas Senhoras,

mesmo a tempo do encerramento das urnas, aqui vai o meu último contributo para hoje à noite, sobre a colorida (e única) comédia nomeada para Melhor Filme.

Diria que é impossível não gostar de Grand Budapest Hotel (a não ser que se seja o Vasco Câmara). Não vi assim tantos filmes de Wes Anderson para dizer que é uma repetição, cansativo ou não sei o quê. Assim de cabeça lembro-me de The Darjeeling Limited (que adorei) com o mesmo ritmo alucinante, cores semelhantes e alguns actores em comum.

Como não simpatizar com uma história que conta uma história que conta uma história? Para além de uma voz que vai relatando os acontecimentos, a estrutura narrativa inclui até uns separadores kitsch amorosos que introduzem os vários capítulos.

No centro de tudo temos um velho e magnífico hotel (acho que não há maus filmes passados em hotéis, resulta sempre em alguma coisa entusiasmante), situado numa imaginária república algures no Leste da Europa, que vamos conhecendo ao longo de várias épocas. Desde os áureos anos 30, quando o hotel era uma soberba e elegante engrenagem, até à ruína desolada de um refúgio para solitários.

Quem faz girar a engrenagem é M. Gustave (Ralph Fiennes), o concièrge que é rei absoluto no Grand Budapest, amante de arte e poesia, de velhas senhoras e de L’ Air de Panache, o perfume, indispensável para manter a ilusão de grandeza. A relação de Gustave com Zero, o jovem paquete com quem desenvolve uma profunda amizade, é o motor e a chave do filme.

A propósito de chave, sabem o que é A Sociedade das Chaves Cruzadas? Não vou estragar a surpresa, descubram tudo num dos capítulos de Grand Budapest Hotel.

Beijinhos a todas,

Céu

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Overacting

por , em 21/2/15

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Queridas Senhoras,

finalmente vi Birdman, o candidato aos Óscares que me tinha sido vivamente recomendado, por gente tão idónea como a minha irmã e a S.. (mas não por um dos críticos que sigo habitualmente, o Jorge Mourinha do Público, que lhe atribui apenas uma estrela).

Mana, S., tenham calma, eu gostei do filme. O título deste post não contém nenhuma crítica negativa implícita. Overacting porque é um filme de actores do caraças! E é sobre actores, representação, teatro, verdade, mentira. (Não andamos por aqui todos tantas vezes em overacting, a exagerar nos nossos papéis? A querer muito que gostem de nós?)

Não achei o filme sublime ou genial mas para mim aquilo é cinema. Não querendo tirar o protagonismo ao Michael Keaton (o filme é justissimamente dele), tem o Edward Norton e não me parece que este alguma vez tenha feito maus filmes (e se fez, ele é tipo para os tornar bons). E tem uma mulher chamada Naomi Watts com a aura das antigas divas. E uma menina chamada Emma Stone que ainda não me fala ao coração mas o problema deve ser meu.

Esta gente reúne-se num velho e respeitável teatro da Broadway para ensaiar Raymond Carver - De que falamos quando falamos de amor? Riggan (Michael Keaton), um ex-actor de filmes de acção, está em crise de ego e anda à procura do amor-próprio, do público, da crítica, da filha, da namorada, da ex-mulher. Ele só quer ser amado, sim, mas confunde amor e admiração. E entretanto chegou aos 60, a flacidez é implacável e o twitter também.

Enquanto compõem as suas personagens, no palco e fora dele, andam todos à procura da verdade. Como se isso existisse.

(Não é o meu candidato favorito para amanhã. Dos que vi, as minhas fichas vão todas para Boyhood.)

Beijinhos a todas,

Céu

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Primeira sessão

por , em 7/2/15

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Queridas Senhoras,

o ano passado, na 1.ª edição do PLAY, conhecemos a Anina, que não mais esquecemos, e a Alice ficou espantada por descobrir que há filmes noutras línguas para além do inglês.

Já na edição deste ano, vimos, no fim-de-semana passado, O Tigre Azul, da República Checa. Hoje tivemos o privilégio de assistir, na belíssima sala da Cinemateca Júnior, no Palácio Foz, a uma sessão de filmes antigos acompanhados ao piano.

Privilégio mesmo: a programação incluiu uma reconstituição da primeira sessão pública do Cinematógrafo dos irmãos Lumière, apresentada no Grand Café, em Paris, a 28 de Dezembro de 1895. Nunca tinha assistido e gostei de o fazer pela primeira vez com a Alice, ainda para mais numa sala tão bonita, reservada e dedicada às crianças.

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A sessão prosseguiu com quatros pequenos filmes fantásticos de finais do séc. XIX, inícios do séc. XX (entre os quais uma divertida versão da Cinderela) e terminou com as pantominices do Charlot. Foi uma viagem aos primórdios do cinema com piano tocado ao vivo. Uma tarde para recordar.

Fiquei com a ideia de que muita gente desconhece a Cinemateca Júnior (uns amigos nossos foram por engano ter à Cinemateca Portuguesa, na Rua Barata Salgueiro, e andava por lá mais gente enganada). Por isso aproveito para divulgar: esta é a única sala de Lisboa exclusivamente dedicada a cinema para crianças e jovens. Todos os sábados, às 15 horas, há um filme para ver. Os bilhetes são muito mais baratos do que nas sessões comerciais e a programação é mais criteriosa. E muito variada também. Tem filmes para todas as faixas etárias, de crianças pequenas a adolescentes. (Este mês, por exemplo, vai passar o Cinema Paraíso.)

Acabamos por frequentar pouco esta magnífica sala por causa do horário (é difícil ter toda a gente pronta e despachada a tempo de estar lá às 15 horas). Mas vale bem a pena antecipar o almoço de sábado e aproveitar estas sessões. E a partir de agora planeamos fazê-lo mais vezes!

Beijinhos a todas,

Céu

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Questionário ‘Ter 40′