A sorte

por , em 6/7/16

Uma pessoa podia enlouquecer de tanto olhar o filho que dorme e pensar a sorte, a sorte, a sorte que foi termos nascido aqui e não lá.

E de não saber o que mais pode fazer para além disso.

Beijos, que estejam bem.

Marta

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Cobardia maternal

por , em 20/10/15

memória
Queridas Senhoras,
não me orgulho deste momento. Hoje, pela primeira vez, o Francisco viu de relance a tristemente célebre imagem da criança síria morta à beira-mar.

- Mãe, que horror, olha o bebé…
- Não é um bebé, filho, é um boneco.
- Um boneco?
- Sim, um boneco que algum menino perdeu na praia.
- Oh, coitadinho do menino!

Que me perdoem Aylan e a sua família; que me perdoem todos os que sofreram e sofrem em busca de paz. Eu, cobardemente, reagi por instinto, querendo proteger o meu filho daquela dose brutal de realidade. Do conforto do meu sofá.

Tento sempre dizer-lhe a verdade. Tenho que tentar melhor.

Abraços,
Marta

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Notícias e tangerinas

por , em 21/2/15

compassionatecuisine

Foto de compassionatecuisineblog.com

Queridas Senhoras,

esta semana foi a semana das tangerinas. Na quinta-feira, a B. trazia no carro dois sacos cheios delas para distribuir. Que fora o vento dos últimos dias que as deitara todas ao chão, lá na Pampilhosa. Eu fiquei com um saco, a J. ficou com o outro, a M. declinou a oferta porque trouxe tangerinas da casa de família, na Carapinheira. Quando cheguei a casa, o Gonçalo disse que já tinha comido tangerinas nesse dia (alguém levara uma boa dose delas para o escritório de Aveiro) e que, quando estivera em Mira, tinham-lhe dito o mesmo do vento e da necessidade de partilhar as tangeridas tombadas, antes que se estragassem.

Antes que as minhas se estragassem, fui deixar metade a casa da minha vizinha M.

E ontem, quando li o post da Céu sobre o negócio das notícias, pensei que gostaria, sim, senhora, de reflectir e escrever alguma coisa sobre o assunto. Mas, ora, e a minha ideia de vos falar das tangerinas? Hoje acho que, se vamos falar de propagação, cabem as tangerinas e as notícias no mesmo saco. Na primeira história, foi um vendaval e a proximidade do campo à cidade de Coimbra que fez com que andássemos todos a falar de tangerinas.

Na segunda história, são ‘shots de e-mail marketing para bases de dados’ que determinam aquilo de que andamos todos a falar. Uma grande percentagem de nós, autoras deste blog, trabalha ou trabalhou em media e sabe bem como é que estas coisas funcionam. É uma espécie de corrida em que já não interessa quem vai à frente; o que interessa é não ficar de fora. O assunto pegou? Peguemos no assunto.

Para mim, há dois lados desta questão. Para mim, digamos, como consumidora de informação. Por um lado, assusta-me o afunilamento e procuro fugir dele o mais possível. Selecciono cada vez mais as fontes de informação a que recorro, procurando diversificá-las, escapar à tirania da actualidade. Porque eu gosto de saber, de aprender, de conhecer, de descobrir. E a maior parte do prazer de tudo isso está no processo. Gosto de ir à procura de mais sobre isto ou aquilo, e de descobrir (ou inventar) ligações. É um dos meus passatempos preferidos. Mas tem que dar trabalho e tem que gerar surpresa, senão não tem graça nenhuma.

Por outro lado, naqueles assuntos que é impossível ignorar, lembro-me de uma citação do escritor Harlan Ellison muito usada mas muito pouco posta em prática: ’You are not entitled to your opinion. You are entitled to your informed opinion. No one is entitled to be ignorant.’ E é com esta dose de rudeza que me mantenho calada sobre muitos dos assuntos que inflamam os media e as redes sociais dia após dia.

A diferença entre as tangerinas e as notícias (ou as opiniões) é que, das primeiras, quantas mais, melhor.

Bom fim-de-semana!

Marta

PS: Quando eu era novinha, dizia que queria ser jornalista para ser a primeira a saber tudo. E o meu então namorado respondia, ‘mas não são os jornalistas os primeiros a saber tudo. Eles só sabem aquilo que interessa a alguém que eles saibam.’ Estávamos nos anos 1990.

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DN

Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Que o tempo que nos deste seja um novo
Recomeço de esperança e de justiça.
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Erguei o nosso ser à transparência
Para podermos ler melhor a vida
Para entendermos vosso mandamento
Para que venha a nós o vosso reino
Dai-nos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Fazei Senhor que a paz seja de todos
Dai-nos a paz que nasce da verdade
Dai-nos a paz que nasce da justiça
Dai-nos a paz chamada liberdade
Dai-nos Senhor paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Sophia de Mello Breyner Andresen
Dual (1972)

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#ogiganteacordou

por , em 21/6/13

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Queridas Senhoras,

Com as manifestações da última semana, são muitas as emoções que temos vivido.

Conscientes que estamos a assistir a um momento singular na história do Brasil, aqui em casa tentamos digerir e organizar toda a informação que nos chega, o que lemos na imprensa nacional e estrangeira, nos sites, na televisão.

Vivenciar uma experiência destas fora do nosso país, longe das nossas referências, é um misto de desconforto e de excitação. Em Lisboa e em Madrid tínhamos as nossas fontes de informação “preferidas e de confiança”, mas aqui tudo para nós é vago, novo, ainda não temos referências e opiniões formadas. Em que jornais confiar, quais os pró-governo, os anti-governo, os pró-Dilma, os pró-Lula etc. Gosto de pensar que ainda temos poucos preconceitos, e por isso toda a informação que nos chega é digerida, em vez de ser logo seleccionada, absorvida ou posta de lado. Quais os meios que exageram, quais os meios que censuram? O exercício de filtrar, ou não, a informação que nos chega tem sido um desafio e um exercício diário e constante.

Depois da emoção da grande manifestação pacífica de segunda-feira pelas ruas de São Paulo, veio um sentimento de instabilidade com a violência e falta de controle dos eventos que se sucederam nos dias seguintes.

Ontem, quinta-feira, os níveis de vandalismo e sobretudo, a falta de controle por parte das autoridades, atingiu o auge. Agora sim, estamos na verdadeira ansiedade, e quase diria impaciência, de ver o que vai acontecer. A sensação, pelo menos minha e do Pedro, é que a noite de ontem foi um marco. Já não há espaço para as manifestações pacíficas saírem fora do controle e terminarem de forma violenta. Com a noite vem a desordem. Até quando?

Uma das palavras chave nas redes sociais na segunda-feira foi #ogiganteacordou.
E agora?

bjs

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Pictures of you

por , em 17/6/13

Queridas Senhoras,

hoje regresso aos nossos posts musicados. Foi o Pictures of You, dos Cure, uma das canções da minha vida, que despoletou a sucessão de ligações que se seguirá.

. Remembering you, how you used to be

«Tenho pensado muito nisso aí, das fotos, falo com os passageiros e tal e descobri que é assim, é do ser humano, mesmo. A pessoa, olha só, a pessoa trabalha todo dia numa firma, vamos dizer, todo dia ela vai lá e nunca tira uma foto da portaria, do bebedor, do banheiro, desses lugares que ela fica o tempo inteiro. Aí, num fim de semana ela vai pra uma praia qualquer, leva a câmera, o celular e tchuf, tchuf, tchuf. Não faz sentido, pra que que a pessoa quer gravar as coisas que não são da vida dela e as coisas que são, não? Tá acompanhando? Não tenho uma foto da minha esposa no sofá, assistindo novela, mas tem uma dela no jet ski do meu cunhado, lá na Guarapiranga.»

Um taxista viúvo foi parar à coluna de Antonio Prata, na Folha de S. Paulo, por confessar as saudades que sente da mulher, da mulher de todos os dias, e o desânimo de não conseguir encontrá-la, essa versão desprevenida e crua, nos álbuns de fotografias da família.

. And you finally found all your courage to let it all go

«Over the course of their 15-year friendship, Susan Sontag would often complain to Annie Leibovitz that, despite being one of the most famous photographers in the world, she never took any pictures whenever they went out together. It’s a complaint that Leibovitz has had cause to look back on, lately, as a grim kind of irony: during the last weeks of Sontag’s life, Leibovitz forced herself to take photographs and now, nearly two years after her friend’s death, she has published them in a book.» Emma Brockes, The Guardian

Quando descobri a escritora Susan Sontag, parti à descoberta da mulher Susan Sontag – sofro de um considerável voyeurismo literário, não me bastam as palavras, preciso da ilusão de conhecer a pessoa que as escreveu. Através de Sontag, interessei-me por Annie Leibovitz, a fotógrafa rock star, sobretudo quando percebi que esta compensa o lado mais encenado da sua fotografia com a busca de registos crus. Como os dos últimos dias de Sontag, os dos últimos dias do seu pai. Guardar guardar guardar a vida mesmo (ou sobretudo) quando esta já intersecciona com a morte.

. There was nothing in the world that I ever wanted more

Duas vidas que entraram pela minha adentro nestas últimas semanas, via redes sociais, e que mexeram muito comigo, com as minhas memórias de filha de uma mãe doente, com o meu coração de mãe de um filho saudável. Provavelmente deram por elas, também. O que as liga entre si (e que me lembrou Annie Leibovitz, o taxista viúvo e os Cure) é o facto de terem sido partilhadas connosco ao longo de dias de sofrimento, até ao último. O último dia de Jennifer, o último dia do Rodrigo.

. I’ve been looking so long at these pictures of you / That I almost believe that they’re real

Os nossos filhos estão a crescer num mundo demasiado editado, e acabarão por acreditar que a vida é, de facto, a sua melhor versão.
Estou a falar de extremos, eu sei. Mas os extremos também começam por um começo. O começo somos nós que o decidimos quando registamos os nossos dias, os dias das nossas famílias, e depois seleccionamos apenas as fotografias em que ‘gostamos de nos ver’ e apagamos as restantes, como se, com estes gestos, apagássemos as memórias que não cabem no nosso apertado crivo.

Esta que vos escreve é pródiga em auto-censura. Mas a vida não é editável. As memórias também não deveriam sê-lo.

Beijinhos a todas

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Questionário ‘Ter 40′