A aventura de Camilo II

por , em 6/10/16

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Queridas Senhoras,

em meados de Agosto escrevi aqui sobre alguns dos títulos da colecção que o jornal Expresso lançou ao longo do Verão, Obra Essencial de Camilo Castelo Branco. Li entretanto os três volumes restantes – O que fazem as mulheres, Retrato de Ricardina e Vinte horas de liteira. Embora sejam todos leitura mais do que recomendada, julgo que o último merece uma referência especial pelo que a seguir se expõe.

Vinte horas de liteira devia ser dado na escola (será que é?). Mas não só: deveria ser prescrito em casos de fastio da leitura, de padecimentos do foro do desinteresse literário, de enfermidades causadoras do desamor aos livros. Uma espécie de antidepressivo para males de linguagem. É tal o prazer que se desprende destas páginas, tão saborosa a prosa, tão ritmado o andamento, que o paciente há-de por força arrebitar.

O que temos aqui? Uma viagem de vinte horas de Vila Real ao Porto embalada por quase igual número de histórias, narradas por um tal António Joaquim. Homem providencial este, que dá boleia ao autor, no lugar perdido de Ovelhinha, povoado nos fraguedos do Marão, fazendo-o embarcar na liteira, vetusto meio de transporte, e num desfiar de romances, ou esqueletos de romances, que mais do que entreter a jornada, hão-de maravilhar o autor e todos quantos subam a bordo.

Uma figura, este António Joaquim, um poço de virtudes, surpresas e sensibilidade. De bom senso está igualmente bem provido. António Joaquim é o marido, o pai, o filho, o irmão, o amigo que todos gostaríamos de ter. Confiável e confiante, dirá, no remate do livro: “Não consinto que se minta em meu nome!”

Fiquem sabendo, pois, que a mentira e a manipulação não terão aqui margem de manobra. António Joaquim descobre-se narrador exímio fazendo uso, somente, de casos e histórias que viveu, conheceu de perto, por via familiar ou de vizinhança. O rol de contos quase sai a pedido. Há histórias com dinheiro e sem dinheiro, sentimentais, de religiosos, de enjeitados, de tesouros escondidos, de viúvas e órfãos, de famílias desavindas e amores reencontrados.

A viagem de liteira deu um livro. Devia ser dado na escola. Alguém me sabe dizer se é??

Beijinhos a todas,

Céu

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Date night

por , em 2/10/16

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Queridas Senhoras,

um casal vê-se com os filhos entregues aos avós e com a tarde e a noite livres para aproveitar a magnífica e vibrante cidade de Lisboa. Os concertos do Dia Mundial da Música enchem as praças, corre uma brisa suave e o tempo está por nossa conta. Na hora de escolher um restaurante para jantar, a ansiedade instala-se. Percorremos o Chiado, as montras sugestivas e os letreiros catchy sucedem-se. À vista de tanta elegância, sofisticação descontraída e empreendedorismo, não distinguimos logo o que estamos a ver, se é uma tasca hipster ou uma loja trendy de moda e acessórios. Sabemos lá se os designers de tabernas não decidiram agora que é para pôr ténis e mochilas na montra.

Uma consulta à Zomato diz-nos que o novo peruano custa 50€ para 2 pessoas e os comentadores confirmam os preços elevados, ainda que justificados pela “experiência gratificante”. Diz que os pãezinhos a vapor de Taiwan também não saem baratos e nem sequer ficam nesta zona da cidade. Procuramos em vão uma lista de sítios para “casais suburbanos que querem experimentar uma coisa gira até 30€/2 pessoas”.

Com o olho no Cais do Sodré, descemos a Rua do Alecrim. No Palácio Chiado, com as suas pinturas, escadarias e tectos altos, toda a gente bebe gin. O Olivier assa frangos mais abaixo e há um bar de peixe só com um balcão a toda a volta da sala. A esplanada do espanhol, nas escadinhas, tem bom ar mas faz-se pagar bem.

O mexicano está cheio de gente, provavelmente muito à vontade com tacos e margueritas. Não somos nós. A steakhouse está igualmente composta, a clientela não de deixou demover pelos preços elevados da carne maturada a 21 dias.

Avistamos o tal peruano da moda, brilhantemente iluminado e espelhado, e, do outro lado da estrada, o nosso destino desconhecido: Salsicharia Vienense.

São só salsichas, é verdade, mas o adjectivo “vienense” empresta um glamour, uma erudição até, que acaba por salvar a noite (e combina com o Dia Mundial da Música). Por um custo muito razoável, temos o nosso jantar a dois e até podemos comentar, na altura da sobremesa, “ah! as pastelarias de Viena.”

Sim, porque nós já estivemos em Viena. E ainda que tudo seja uma única e indistinta noite distante – Paris, Viena, Florença, Roma – podemos fintar o casal suburbano e fingir uma familiaridade cosmopolita com as pastelarias de Viena, os bistrots parisienses e as trattorie florentinas.

A ementa não oferece dificuldades de maior mas ainda assim temos que escolher o tipo de salsicha, entre muitas variedade de wurst. Há uma lista igualmente extensa de cerveja artesanal com explicações complicadas sobre harmonização. É com alívio que peço uma imperial industrial.

Acabamos de jantar tão cedo que os mais jovens devem ter acordado há pouco da farra da noite anterior. Que nos importa se comemos a nossa wurst com batatas wedge e uma fresca torte de framboesa e maçã. Tal e qual como nas pastelarias de Viena.

 

Beijinhos a todas,

Céu

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                                                                                                                                                   Esplanada-jardim no Museu Nacional do Azulejo

Queridas Senhoras,

no fim-de-semana dei uma volta grande por Lisboa. Fui do Rossio ao Museu Nacional do Azulejo a pé (a Paula põe-se agora a pensar como é que fiz isto). Cruzei-me com magotes de turistas, muitas obras e caos generalizado. Não alinho na diabolização do aumento do número de visitantes em Lisboa mas neste Dia Mundial do Turismo decidi elaborar uma lista de locais onde não me sinto “esmagada,” como aconteceu nesse passeio.

Centro Cultural de Belém
Com exposições, actividades para crianças, esplanadas, jardim e vista para o rio, continua a ser um dos meus sítios preferidos para passear ao fim-de-semana.

Cinema São Jorge
Dos maiores prazeres da vida urbana: frequentar os festivais de cinema do São Jorge.

Gulbenkian
Embora seja muito procurado por turistas, é bem capaz de ser o local mais civilizado da cidade. Museus, jardins, esplanadas, programação para toda a família, muitas actividades gratuitas.

LxFactory
Dentro do género hipster-cool, com as suas tascas modernas, open days, mercados rurais e feirinhas vintage, e fora do eixo central, escapa ao radar turístico mais óbvio.

Monsanto
Além dos parques infantis do Alvito e da Serafina, há muito por desbravar neste parque florestal cheio de caminhos, trilhos e atalhos.

Museu da Cidade
A esplanada nos jardins foi uma das minhas últimas descobertas. É um sossego e fica mesmo ao pé do jardim do Campo Grande, agora renovado e com grandes áreas verdes, não muito frequentadas por turistas.

Museu Nacional do Azulejo
Visitei pela primeira vez no sábado e fiquei encantada com a esplanada no jardim interior. Muito civilizado também, muitos turistas franceses.

Parque das Nações
Durante anos embirrei com a “Expo” mas agora reconheço que é um dos melhores locais para grandes caminhadas junto ao rio.

Pérola do Chaimite
Queria incluir algum sítio de compras na lista. Mas não há paciência para compras, seja em centros comerciais seja nas milhentas feiras e mercados. Depois lembrei-me desta adorável lojinha de chás e cafés na Duque de Ávila. Cheira muito bem.

Piscinas municipais
Fora dos horários confusos de aulas e da criançada, é um luxo acessível por muito pouco.

Quiosque Jardim Amoreiras
Provavelmente, a esplanada mais serena da cidade.

Quiosque Praça José Fontana
Ao cimo da Duque de Loulé, o descanso de uma esplanada num pequeno jardim onde por vezes se ouve jazz.

Slash Hair Studio
Fica na Estefânia, uma das novas zonas discretamente cool, e é muito mais do que um cabeleireiro como poderão comprovar se acompanharem a página do facebook.

Teatro Nacional D. Maria
Dias gratuitos, actividades para crianças, uma programação enérgica e surpreendente.

Veneziana
A gelataria dos Restauradores. Nunca há filas para pedir um copo de morango e limão.

 

Beijinhos a todas!

Céu

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O hotel dos mil olhares

por , em 23/9/16

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Queridas Senhoras,

depois de ter lido o livro de crónicas Ouro e Cinza de Paulo Varela Gomes (sobre o qual escrevi aqui), fiquei com muita curiosidade em ler os seus romances. Na Biblioteca Municipal da Amadora encontrei, solitário, o misterioso e sedutor Hotel (Prémio Pen Narrativa 2015). Não sabendo nada acerca dos romances de PVG, fiquei com fortes e boas impressões do universo de interesses do autor a partir da leitura das crónicas.

Ocorreu-me de imediato uma delas, onde PVG discorre sobre os sentimentos de alguém que se hospeda num hotel. Sendo por definição um local transitório, estranho, de não-pertença, o hotel cativa-nos por isso mesmo, pela transitoriedade e pelo anonimato. No entanto, não é raro experimentarmos à chegada a vontade de querer de imediato pertencer àquele universo. Os hóspedes que já lá estão instalados olham os recém-chegados com um certo desdém e nós olhamos para eles com inveja da convivência que já estabeleceram, quer entre eles, quer com o hotel.

Um hotel é sempre um lugar de enigmas. Seja uma dessas unidades modernas, enormes, brutalmente anónimas e insonorizadas, até uma pequena pensão familiar com televisores antigos e naperons das mesinhas de cabeceira. Neste romance trata-se de outro género ainda. Um hotel inserido num edifício histórico, um palacete do início do século XX, com uma arquitectura labiríntica, fonte de inesgotáveis prazeres, sobretudo visuais.

O nosso hoteleiro chama-se Joaquim Heliodoro, personagem que caracterizaremos, para já, apenas como esquisito. O nosso hoteleiro despreza certas práticas ou convenções da hotelaria moderna, que vão desde a utilização de termos como check in e check out, até aos mortiços quartos standard, divisões quadradas ou rectangulares, que não oferecem ao ocupante o prazer da descoberta de qualquer recesso, reentrância ou simples recanto.

No Hotel Torre das Infantas não há evidências nem sequer harmonia. Há múltiplas salas e saletas, corredores e patamares, escadas e degraus, portas e acessos, janelas e varandas, pontos de mira, ângulos, esquinas, zonas sombrias e inundadas de luz, candeeiros que ocultam ou revelam, jarrões sem flores, sempre.

Cada quarto ou suite reserva encantos e surpresas que deleitam os hóspedes. Nenhum é igual ao outro e todos causam frémitos de prazer ao serem percorridos. Um quarto ou suite pode desdobrar-se em três patamares, possuir um corredor sinuoso que abre para uma saleta secreta ou um simples recanto com uma janela que atrai o olhar ou um cadeirão confortável feito para nos embrenharmos na leitura. Ninguém que entre num destes quartos pode deixar de sentir a sofreguidão da descoberta, o impulso de percorrer, procurar, espreitar.

Joaquim Heliodoro, o nosso hoteleiro, tem um segredo e um estrito código de honra. Quanto ao segredo, seria grande indiscrição minha aflorar aqui o que quer que seja a seu respeito. Quanto à honra, digamos apenas que Joaquim Heliodoro nunca nos desiludirá.

Beijinhos a todas,

Céu

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Cultura financeira

por , em 20/9/16

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Museu do Dinheiro, um local a visitar para tomar o gosto pelo mundo financeiro. Até dá para tocar numa barra de ouro.

Dedicado à Paula, que guarda uma certa mágoa por não ter sido bancária

Queridas Senhoras,

quando comecei a trabalhar em meados dos anos 90 o meu primeiro salário foi de 100 contos. Ena, pensei na altura. Tinha acabado o curso há três meses e já estava a trabalhar, a ganhar cem contos limpos. Vivendo em casa dos pais, o ordenado era especialmente atractivo (atenção, as minhas expectativas não eram altas: tirei uma licenciatura em Relações Internacionais).

Antes de começar a trabalhar, já tinha juntado algum dinheiro por ter frequentado um ou dois daqueles cursos subsidiados pelos fundos europeus. Depois comecei também a fazer traduções por conta própria, para uma pequena empresa que pagava bem (!) e a horas (!). Ganhei algum gosto e interesse pelo dinheiro. Em juntá-lo, em investi-lo, em vê-lo crescer. Tinha uma conta-poupança habitação, usufruía dos benefícios fiscais, comprava certificados de aforro, lia a Dinheiros & Direitos da Deco, informava-me acerca de retenções na fonte e, vá lá, taxas de juro. Foi a minha a época de ouro como “investidora” e aquela em que tive maior cultura financeira.

Pouco a pouco, ou porque a linguagem financeira e bancária se complicou extraordinariamente, ou porque passei a ter outras preocupações e afazeres ou porque deixei de ter capital para “investir”, a minha relação com o mundo das finanças esfriou consideravelmente. Dez ou quinze anos volvidos, eu já não era a mesma e o meu dinheiro também não.

Passei a achar que não tinha sequer que pensar muito nisso uma vez que não é difícil saber que destino dar a mil euros por mês. Não sendo muito consumista ou despesista, pelo lado da despesa não podia ter grande intervenção (excepto fazendo um esforço grande de poupança, abdicando de pequenos prazeres como jantar fora, cinema, teatro e livros). Poderia tentar operar pelo lado da receita, para ter mais margem de manobra. Mas mesmo que houvesse, hoje em dia, trabalho freelance que compensasse em termos monetários, não é fácil encaixar tarefas suplementares, se não quisermos abdicar do nosso tempo familiar, de descanso e lazer. Há 20 anos era capaz de perder horas de sono para acabar uma tradução e ganhar mais uns trocos, hoje não teria a disponibilidade física e mental para isso.

Entretanto, há coisa de cinco anos, a pressão aumentou com a cultura do empreendedorismo. De repente, todos temos que ter jeito para o negócio! Se não temos o sonho (ou melhor o objectivo, que esta filosofia baseia-se em objectivos, metas, targets, planos e o camandro) de ter o nosso estaminé próprio, físico ou virtual, estamos completamente out, vê-se logo que não somos millennials, estamos é velhos e cansados.

[Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.]

Empreendedora nunca serei, sou incapaz de vender um alfinete, mas decidi que tenho que melhorar a minha cultura financeira. A ignorância e o desconhecimento nunca foram bons conselheiros. Curiosamente veem-se imensos blogues pessoais de moda e estilo, cozinha e receitas, mas poucos (parece-me) a partilhar conselhos financeiros. Fazendo uma pesquisa, aparece imensa coisa, claro, mas como separar o trigo do joio? Este pareceu-me interessante mas como saber se não é patrocinado pela banca e pelas seguradoras??

Partilham destas preocupações? Têm alguma recomendação de um blogue ou site a seguir para estar informada e acompanhar a evolução dos (ó senhores!) “mercados”?

Beijinhos a todas,

Céu

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Lenha para a fogueira

por , em 15/9/16

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Queridas Senhoras,

hoje passámos a manhã na ‘Escola Primária’ (é engraçado como a expressão se recusa a desaparecer). Foi o primeiro dia de aulas do Francisco, que continua a ver o seu Jardim de Infância através das grades, mas que agora sente outro tipo de responsabilidade. Não sei onde é que ele foi buscar as preocupações que tem manifestado nos últimos tempos.

- E se tiver má nota?

- E se eu não tiver espaço na cabeça para tudo?

- E se os outros miúdos gozarem comigo por eu ser pequenino?

- Se eu tiver má nota no primeiro dia a culpa não é minha, pois não, ainda não tive tempo para aprender…

Aos poucos, tenho tentado desconstruir estes monstros assustadores, relativizando e simplificando, mas sempre desejosa de que comece o raio da escola de uma vez por todas, porque tenho a certeza de que mal ele perceba o que é que ali se vai passar vai relaxar. Não sei de onde vêm estas assombrações – sei que não nasceram nem em minha casa nem em casa do pai, isso é certo. São coisas que ele ouve por aí. Felizmente, fala delas connosco. Espero que seja sempre assim.

Mas cá entre nós, enquanto eu o tento tranquilizar, confesso que lido com os meus próprios monstros. A minha ‘primária’ correspondeu a um período muito conturbado da minha infância e, provavelmente por isso, tenho muito poucas memórias claras desse tempo, meia-dúzia de pormenores, apenas. Por isso, cá entre nós, confesso que deposito alguma esperança redentora no que aí vem. Que eu possa restaurar um pouco a minha infância através do Francisco. Será pedir demais? Provavelmente.

Para ele, desejo muita amizade e muita curiosidade. E a coisa dá-se.

Abraço a todas,

Marta

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Questionário ‘Ter 40′