Segunda-feira, 15 Agosto 2016

por

image

- O que é aborrecido para ti?
- Nada, na verdade. Nunca me senti aborrecida.
Manual para mulheres de limpeza, Lucia Berlin
(pp. 318)

Queridas Senhoras,

como abordar o livro Manual para mulheres de limpeza de Lucia Berlin? Abro ao acaso e sai-me o conto Luto que começa assim:

Gosto muito de casas, de todas as coisas que elas me dizem, esse é um dos motivos por que não me importo de trabalhar como mulher de limpeza. É como ler um livro.

Ora aí está, esta pode ser uma abordagem. Os contos de Lucia falam das muitas profissões que ela teve na vida real, desde mulher de limpeza a auxiliar em hospitais, enfermeira, telefonista, professora. Para além de ter sido mãe de quatro filhos e alcoólica. Antes disso frequentou escolas de freiras e viveu uma infância em cidades mineiras dos EUA e do México. Uma vida nada aborrecida, é certo, mas também não me parece que Lucia fosse menina para se aborrecer facilmente.

Gosto de trabalhar nas urgências – lá conhecem-se homens, pelos menos. Homens a sério, heróis. Bombeiros e jóqueis. Passsam a vida a vir às urgências. Os jóqueis têm radiografias óptimas.

Não há desolação nestas histórias apesar da dureza de muitas das situações descritas (doenças, violações, maus-tratos, humilhações, alcoolismo em último grau) mas o conjunto de contos dedicados à profissão que dá título ao livro, é especialmente feliz.

Depois, à laia de apêndice, mandou-me descongelar o frigorífico com amoníaco e baunilha.
Amoníaco e baunilha. Isso fez-me parar de a odiar. Uma coisa tão simples.

As casas das patroas e as paragens de autocarro são os cenários destes contos em particular. Outros passam-se em hospitais, escolas, clínicas de desintoxicação, lojas de bebidas. Há várias lavandarias, locais extraordinariamente literários.

A lavandaria self-service do Angel fica Albuquerque, no Novo México. 4th Street. Lojas maltrapilhas e ferros-velhos, lojas de roupa em segunda-mão com catres militares, caixas de -meias desirmanadas, edições da Good Hygiene de 1940. Lojas de cereais a granel, motéis para amantes e bêbados, e velhas com cabelo pintado com hena que tratam da sua roupa na lavandaria do Angel.

As lavandarias são uma obsessão, o envelhecimento nem tanto.

Durante a maior parte do tempo, não me importo de estar a envelhecer. Algumas coisas dão-me uma pontada, como ver outros a andar de skate (…). Outras coisas dão-me pânico como as portas dos comboios. Uma longa espera antes de as portas abrirem depois de o comboio parar. Não é muito mas é tempo de mais. Não há tempo.
E lavandarias self-service. Mas elas já eram um problema quando eu era nova.

Os contos não têm uma organização cronológica ou temática evidente. Alternam entre várias idades, territórios, ambientes, sendo a narradora uma Lucia (com esse ou outro nome), em diversas fases da vida. Nalguns (poucos) o narrador é alterado, o ponto de vista muda, como em Quero ver-te sorrir:

Ela sorriu. Entrei no mundo tecnicolor deles, que cheirava a pão de milho e a malaguetas, a lima, a coentros e ao perfume dela.

Até sobre a doença e a morte (Lucia acompanhou o cancro da irmã Sally), há passagens cheias de vida e pressa:

Quando alguém tem uma doença terminal, o ritmo tranquilizador do tempo é estilhaçado. Depressa de mais, não há tempo, adoro-te, tenho de acabar isto, diz-lhe isso. Espera um minuto!

A última história chama-se Voltar a casa e fala de corvos.

Estava por acaso no alpendre da frente da minha casa quando os vi pela primeira vez. (…) o que me incomoda é só ter reparado neles por acidente. Que outras coisas perdi? Quantas vezes na minha vida terei estado, por assim dizer, sentada no alpendre das traseiras, não no da frente?

Depois de lermos este livro, percebemos esta ansiedade. Imaginem se Lucia pudesse ter estado ao mesmo tempo no alpendre da frente e no das traseiras.

 
Beijinhos a todas,

Céu

Tags:

· · · ◊ ◊ ◊ · · ·

Deixe o seu comentário

Questionário ‘Ter 40′