Sexta-feira, 23 Setembro 2016

por

09ec8f8902fab1cfee98ef781feb697e-bigbook

Queridas Senhoras,

depois de ter lido o livro de crónicas Ouro e Cinza de Paulo Varela Gomes (sobre o qual escrevi aqui), fiquei com muita curiosidade em ler os seus romances. Na Biblioteca Municipal da Amadora encontrei, solitário, o misterioso e sedutor Hotel (Prémio Pen Narrativa 2015). Não sabendo nada acerca dos romances de PVG, fiquei com fortes e boas impressões do universo de interesses do autor a partir da leitura das crónicas.

Ocorreu-me de imediato uma delas, onde PVG discorre sobre os sentimentos de alguém que se hospeda num hotel. Sendo por definição um local transitório, estranho, de não-pertença, o hotel cativa-nos por isso mesmo, pela transitoriedade e pelo anonimato. No entanto, não é raro experimentarmos à chegada a vontade de querer de imediato pertencer àquele universo. Os hóspedes que já lá estão instalados olham os recém-chegados com um certo desdém e nós olhamos para eles com inveja da convivência que já estabeleceram, quer entre eles, quer com o hotel.

Um hotel é sempre um lugar de enigmas. Seja uma dessas unidades modernas, enormes, brutalmente anónimas e insonorizadas, até uma pequena pensão familiar com televisores antigos e naperons das mesinhas de cabeceira. Neste romance trata-se de outro género ainda. Um hotel inserido num edifício histórico, um palacete do início do século XX, com uma arquitectura labiríntica, fonte de inesgotáveis prazeres, sobretudo visuais.

O nosso hoteleiro chama-se Joaquim Heliodoro, personagem que caracterizaremos, para já, apenas como esquisito. O nosso hoteleiro despreza certas práticas ou convenções da hotelaria moderna, que vão desde a utilização de termos como check in e check out, até aos mortiços quartos standard, divisões quadradas ou rectangulares, que não oferecem ao ocupante o prazer da descoberta de qualquer recesso, reentrância ou simples recanto.

No Hotel Torre das Infantas não há evidências nem sequer harmonia. Há múltiplas salas e saletas, corredores e patamares, escadas e degraus, portas e acessos, janelas e varandas, pontos de mira, ângulos, esquinas, zonas sombrias e inundadas de luz, candeeiros que ocultam ou revelam, jarrões sem flores, sempre.

Cada quarto ou suite reserva encantos e surpresas que deleitam os hóspedes. Nenhum é igual ao outro e todos causam frémitos de prazer ao serem percorridos. Um quarto ou suite pode desdobrar-se em três patamares, possuir um corredor sinuoso que abre para uma saleta secreta ou um simples recanto com uma janela que atrai o olhar ou um cadeirão confortável feito para nos embrenharmos na leitura. Ninguém que entre num destes quartos pode deixar de sentir a sofreguidão da descoberta, o impulso de percorrer, procurar, espreitar.

Joaquim Heliodoro, o nosso hoteleiro, tem um segredo e um estrito código de honra. Quanto ao segredo, seria grande indiscrição minha aflorar aqui o que quer que seja a seu respeito. Quanto à honra, digamos apenas que Joaquim Heliodoro nunca nos desiludirá.

Beijinhos a todas,

Céu

Tags:

· · · ◊ ◊ ◊ · · ·

Deixe o seu comentário

Questionário ‘Ter 40′