Terça-feira, 5 Julho 2016

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800

Queridas Senhoras,

a RTP2 está a dedicar um ciclo a Paulo Rocha durante as sextas-feiras de Julho. Quero aproveitar a oportunidade para conhecer a obra deste realizador fundamental no cinema português e comecei com Os Verdes Anos (1963), obra considerada fundadora de um novo cinema, que veio a fazer escola e a ser citado em vários filmes posteriores de outros realizadores.

O filme é belíssimo e desolador, acompanhando os passeios de Ilda e Júlio pela Lisboa dos anos 60, entre os ambientes burgueses da Avenida de Roma (Ilda é criada de servir) e os arrabaldes campestres onde o aprendiz de sapateiro Júlio vive com o tio. A guitarra de Carlos Paredes entoa e sublinha estas deambulações de forma pungente, dolorosa.

Gostaria de focar-me na personagem de Ilda (Isabel Ruth) que surge magnífica e esperançosa, como o prenúncio de um novo tempo, de uma nova mulher, no meio de todo aquele atavismo, o peso da tradição, a amargura, a ancestralidade. Ilda é alegre e feliz, está decidida a não ser para sempre criada de servir. Se ao menos não lhe tivesse morrido a mãe… Mas se não é de uma maneira, é de outra, diz ela às tantas, decidida, afoita, rapariga que se faz à vida. Quer estabelecer-se como costureira, tem habilidade e está disposta a empreender. Tem sede de viver esta Ilda, mas Júlio há-de trocar-lhe as voltas.

É irónico e amargo que um dos filmes basilares do cinema português reproduza a tragédia da violência do homem português sobre a mulher portuguesa. A doença do controlo e da posse. Júlio veio da aldeia e não encontra o seu lugar na cidade. Não pertence a lado nenhuma. Tem umas ideias de ir para o estrangeiro mas é uma aspiração vaga. Está aturdido, encurralado, não encaixa nos ambientes, não sabe respirar. Tenta acompanhar Ilda nos passeios de domingo, chegam a ir dançar numa matiné. Ilda é atrevida, esteve a experimentar as roupas da patroa, até uns calções mínimos que lhe ficam a matar. E depois vai dançar, rodopia livre na sala, o rock n’ roll toca no gira-discos. Mas Júlio não acerta o passo. Nunca há-de acertar o passo e é Ilda quem vai pagar por isso.

A jovem e destemida Ilda, tão livre, tão solta, tão cheia de vida, deixa cair apenas um desabafo:

“Às vezes dá-me um fastio ser mulher…”
Beijinhos a todas,

Céu

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