Sexta-feira, 3 Outubro 2014

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                                                                                                                                                   Imagem retirada daqui

Queridas Senhoras,

andei 40 anos sem saber quem era o Holden Caufield. É o narrador e personagem principal da celebrada obra de J.D. Salinger A Catcher in the Rye. É claro que do livro já tinha ouvido falar, e muito, desde sempre. Mas por uma razão ou outra, nunca o tinha lido. Nunca me veio parar às mãos, nunca o procurei activamente. Até que….

Até que este post da Maria do Rosário Pedreira me alertou de novo para a ausência desse livro na minha vida. E a minha irmã logo providenciou um exemplar, ainda por cima no original, para eu resolver isto de uma vez por todas. Em boa hora. Ainda bem que conheci o Holden antes da minha filha chegar à pré-adolescência. É que há-de ser um dos livros que lhe vou pôr nas mãos assim que ela tiver idade.

O Holden é um adolescente em dificuldades (passe a redundância) e ler esta história aos 40 anos teve um efeito engraçado: parece que me reconciliou e aproximou desse universo que fará, muito em breve, de novo parte da minha vida, mas agora do outro lado da barricada.

O Holden é todo um universo, toda uma filosofia, toda uma linguagem. Ler a edição original foi uma sorte e o melhor que me podia acontecer. A linguagem é muito simples, não oferece qualquer dificuldade. Porquê? Porque se trata do discurso directo do Holden, um rapaz de 16 anos, de boas famílias, que frequenta colégios caros, mas que escreve como fala, como um adolescente se expressa, isto é, com repetição de expressões (bordões) e nunca variando muito a estrutura das frases e o próprio vocabulário.

No universo Holden a palavra central é “phony” (falso, artificial). As escolas, os professores, os colegas, os adultos em geral, o mundo em geral é “phony”. Os actores, o cinema, o teatro, as conversas. Tudo é “phony”, em graus variados. Pode até ser só um bocadinho “phony” mas é difícil encontrar uma coisa, ou alguém, que seja… qual é o contrário de “phony” afinal? Acho que o Holden nunca explicita.  Sincero, honesto ou verdadeiro não são palavras que apareçam, pelo menos com muita frequência. Mas se querem saber quem é que não é “phony” eu digo-vos. É a Jane. A Jane é o grande amor não declarado do Holden. A quem ele passa o livro todo a dizer que vai ligar mas nunca está no “mood” certo para isso. A Jane é tão o contrário de “phony” que até a dar as mãos se nota.

I held hands with her all the time, for instance. That doesn’t sound like much, I realize, but she was terrific to hold hands with. […] We’d get into a goddam movie or something, and right away we’d start holding hands, and we wouldn’t quit till the movie was over. And without changing the position or making a big deal out of it. You never even worried, with Jane, whether your hand was sweaty or not. All you knew was, you were happy. You really were.

Há excertos, como este, absolutamente ternurentos. Noutros, temos a visão do Holden sobre a sexualidade. Ele tem um problema, sabem. Não consegue avançar muito com uma rapariga se não gostar realmente dela. E quando numa estação ou à porta de um cinema, ele vê uma multidão de raparigas, sabem o que é que o angustia (sim, porque ele fica muitas vezes angustiado por coisas assim, que vê ou ouve, que passam por ele)? Ele fica a pensar o que será feito daquelas raparigas. Com quem é que elas irão casar. Se calhar vão casar com tipos que até são porreiros mas que passam a vida a falar de carros, preocupados com carros. Tipos que se calhar não lêem um livro.

Podia continuar a falar-vos do Holden mas a única coisa de jeito que posso dizer é que, se ainda não o conhecem, corram. Não esperem mais.

Beijinhos a todas,

Céu

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Questionário ‘Ter 40′