Domingo, 9 Outubro 2016

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1507-1

Queridas Senhoras,

este foi o ano de Elena Ferrante. Depois de dezenas (centenas?) de artigos sobre a misteriosa escritora e os seus livros, sobretudo a tetralogia A Amiga Genial, a novela culmina agora na suposta descoberta da identidade da autora.

Mas, a sério, isso tem algum interesse? Teremos nós a pretensão de conhecer um escritor? Todos os autores projectam uma imagem, uma construção, seja pela sua presença ou pela sua ausência no espaço público. Se comparecem ou não em festivais literários, sessões de autógrafos, lançamentos, se adoptam uma pose amistosa ou distante, se dizem muito, pouco ou nada, de que vale tudo isso? É uma mera construção guiada certamente por razões pessoais, imposições da editora, regras de marketing, etc. etc.. Supomos nós que podemos saber quem é um escritor por lhe conhecermos a biografia? Se nem as pessoas com quem vivemos podemos assegurar que conhecemos!

São os livros que importam e nada mais.

Este foi também o ano de Lucia Berlin. Ao contrário de Elena Ferrante, a biografia de Lucia foi extensamente exposta como que para validar e legitimar a sua obra Manual para mulheres de limpeza. Por intervenção de um amigo, agente ou editor, que quis dar a conhecer Lucia ao mundo, a sua vida foi detalhada nas páginas de jornais e revistas.

Mais uma vez, quero lá saber. O que importa são os livros. Elena e Lucia entraram na minha vida e enriqueceram-na, sejam lá elas quem forem ou tiverem sido. Todo o protagonismo que assumem para mim está no que escreveram, nos livros que quero guardar para os meus filhos lerem mais tarde. Se este não é o protagonismo que importa, não sei o que seja.

Volto à primeira história que li de Elena Ferrante, Os Dias do Abandono, e encontro aquilo que Francisco José Viegas referiu desdenhosa e misoginamente numa entrevista recente como “uma obra muito cumpridora das exigências das leitoras”. A escrita de Elena Ferrante é marcadamente feminista, sim. Há aqueles livros que abordam os problemas da próstata. Literatura falocêntrica, vocês sabem. Os alter-egos de Philip Roth e outros, aqueles homens de idade avançada mas charme intocável com apetite insaciável por mulheres mais novas que começam a ter questões com a sua próstata. Em Elena Ferrante os temas são mais virados para o útero, a vagina, as  hormonas femininas. Daí talvez o desdém de FJV.

“O nojo da amamentação, essa função animal. E, mais tarde, os vapores mornos e adocicados das papas. Por mais que me lavasse, aquele mau cheiro a mãe não me saía do corpo. Mário às vezes colava-se a mim, abraçava-me e possuía-me ensonada, também ele cansado do trabalho, sem emoção. Fazia-o, atirando-se à minha carne quase ausente, que sabia a leite, a bolachas, a farinhas, cheio de um desespero pessoal que aflorava o meu sem o reconhecer. Eu era o corpo de um incesto, pensava atordoada pelo cheiro do vomitado de Gianni, era a violação da mãe e não a posse de uma amante.”

pp. 205, Os Dias do Abandono in Crónicas do Mal de Amor (Relógio de Água, 2014)

Importa realmente saber se foi a Elena, a Anita ou a Isabel que escreveu isto?

Beijinhos a todas,

Céu

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