Sobre Marta

'Escrevo para pensar melhor.'

Sete anos

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Um poema do recém descoberto Yehuda Amichai que diz tudo o que eu não seria capaz de dizer sobre o facto de o meu filho fazer hoje 7 anos.
Um maravilhoso míssil lançado às gerações futuras. O meu legado.

Beijinhos,

Marta

O monstro da fome

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Queridas Senhoras,

o livro de que vos quero falar hoje tem alguns pontos de encontro com a sugestão que a Céu nos trouxe há dias. Sim, também pode ser um presente de Natal. Também é uma obra recente, portuguesa, descomplexada e de confiança. Como se tal não bastasse, também nos dá música. Isto é, começa por nos sugerir a banda sonora ideal para acompanhar a leitura.

Confesso que me fiquei pela primeira faixa, I put a spell on you, porque me é fisicamente impossível ouvir Nina Simone sem ter que passar o resto do dia a ouvir Nina Simone. Estão lá outras referências dignas de nota, claro, como Lovesong dos Cure, uma das canções da minha vida (já sabem – suspiro – que falhei o concerto em Lisboa, certo?). Quando cheguei ao fim do livro, fui reler a playlist e, nisso, como que o reli.

A Gorda é uma história de amor, «um feliz encontro entre sexos e almas», delirante e sofrida, que percorre vários anos das vidas de Maria Luísa e David, com muitos desencontros à mistura, e fica em suspenso, numa suspensão esperançada, podendo os leitores mais optimistas depreender que se calhar eles até viveram felizes para sempre.

Ainda antes de David há o regresso alvoraçado de Maria Luísa de Lourenço Marques, primeiro sem os pais. Já nessa altura a protagonista era gorda, como uma auto-definição. Isso é o que passa mais imediatamente através destas linhas. Olá, eu sou a Maria Luísa e sou uma miúda (branca) como as outras em Moçambique, ou então olá eu sou a recém-retornada, ou eu sou a professora, ou eu sou a filha única, ou eu sou já orfã, e sou gorda. Mesmo depois de deixar de o ser, Maria Luísa há-de carregar sempre aquele peso que se fez identidade.

No colégio todas as raparigas reclamam da comida. Eu não tenho reclamações. Tenho fome.

E:

O monstro da fome é um grande amigo quando está saciado.

Isabela Figueiredo é uma genuína contadora de histórias, e conduz-nos ao longo destas páginas urdidas de detalhes, de emoções, de crueza, de sexo, de conformação, de fé, conduz-nos, dizia eu, deslizando.

Quando os papás vieram de África deu-me jeito pensar que já não faziam aquilo que os pais nunca fazem, embora eu tivesse começado pouco tempo antes.

O sexo era uma brincadeira, mas a sério, sumarenta e líquida como descascar uma laranja e comê-la, sem palavras próprias nem regras. Era uma brincadeira de animais saciados-esfomeados, sem se perceber a diferença. Não podia ser possível nem verdade que os nossos pais se entregassem a um gosto tão bom depois de nos ensinarem a encará-lo como vergonha.

Há uma certa tonalidade no discurso de Maria Luísa, sobretudo durante os anos de internato no colégio, que me remete para o magnífico Holden Caufield de J. D. Salinger:

A adolescência é um fundo poço de crueldade, átrio do resto da vida, do qual não se sai sem um lastimoso rasto de nódoas negras.

E depois do átrio?

É assim que se faz. Juntamo-nos e ficamos nivelados e amparados. Juntamo-nos porque acreditamos amar-nos. Temos filhos. Entramos para esse exército, que é também um corpo diplomático. Habituamo-nos. Não estamos presos, mas de quem é este livro, e aquele jarrão? De quem é esta casa, este filho?

Beijinhos,
Marta

A banalidade do mal

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Queridas Senhoras,

ando já há vários dias para escrever-vos sobre este livro, mas é-me difícil. Acho que nunca tinha encontrado o mal tão despudoradamente grafado, banalizado, numa história que é, afinal, de amor e reparação. Um assombro de mestria narrativa, de polifonia, de profundo conhecimento das mais insuspeitas fragilidades do ser humano.

Tudo gira em torno de um violino.

Pousou a mão sobre o estojo, mas o raio da velha recuou um passo; o que é que ela julga, esta cabrona. Incapaz de arrancar o estojo à velha, que se abraçara a ele, Sturmbannführer Voigt tirou a pistola, apontou para a nuca puída e cinzenta e apertou o gatilho. Quase não se ouviu o som do disparo, abafado pelos prantos em redor. E a grande porca esguichou o estojo do violino.
(…)
- Ou mo vende por esta quantia ou… Bom, as autoridades terão todo o interesse em saber que o doutor Aribert Voigt, o Sturmbannfürer Voigt, está vivo, escondido a um quilómetro de distância da cidade do Vaticano, provavelmente graças à cumplicidade de alguém que mexe os cordelinhos no Vaticano. E que, além disso, quer fazer negócio com um violino rapinado em Auschwitz.
(…)
Esta foi a tese de doutoramento de Fèliz Ardévol em compra e venda de objectos.

Mas o protagonista é Adrià Ardévol, o filho que já só conheceu o pai como um culto e reputadíssimo negociante de antiguidades. Adrià é uma criança, um jovem, um adulto, um velho precocemente senilizado pela doença. Repartido entre a obsessão do pai com as línguas e a da mãe com a música, cresceu ao abandono numa casa grande demais em espaço, em riqueza, em segredos, mas parca em afectos. E, claro, atribui a culpa a si mesmo.

Tenho toda a minha infância em casa gravada na cabeça como diapositivos de quadros de Hopper, com a mesma solidão peganhenta e misteriosa.
(…)
Até ontem à noite, passeando pelas ruas molhadas de Vallcarca, nunca tinha percebido que tinha sido um erro imperdoável nascer naquela família.

Por causa daquele violino, o pai de Adrià vendeu a alma ao diabo. Por causa daquele violino, Adrià cresceu a acreditar que fora responsável pelo assassinato do pai. Por causa daquele violino, Adrià perdeu o grande amor da sua vida por duas vezes. A mesma mulher, duas vezes.

Por causa daquele violino, Adrià pôs em causa todo o sentido da sua vida.

E lembro-me sobretudo de que após duas ou três aulas começou a rondar-me pela cabeça uma questão que nunca consegui resolver: ao intérprete de música, só se lhe exige perfeição. Pode ser um miserável como pessoa, mas tem que ser perfeito na execução.
(…)
Por vezes penso no poder da arte e do estudo da arte e assusto-me. Por vezes, não compreendo por que razão a humanidade anda à turra e à maça com tantas coisas que há para fazer. Por vezes, penso que somos mais malvados que poetas e que, portanto, não há solução para nós.
(…)
Não é que eu tenha medo: é que eu não quero procurar a perfeição. Não quero uma profissão que não admita o erro nem a hesitação.
(…)
Na minha idade, começava a aprender que o entusiasmo com que fazemos as coisas é mais importante do que as coisas em si. É o que nos torna pessoas.

Acaba por escolher a escrita.

E se Hopper dizia que pintava porque não conseguia expressar o que queria com palavras, eu escrevo com palavras porque, embora veja as coisas, sou incapaz de as pintar. Mas vejo sempre, como ele, através de janelas ou de portas mal fechadas. E o que não sabia fiquei a saber. E o que não sei invento e também é verdade.

Mas a verdade é que nem uma vida inteira de busca pela compreensão e pela expiação lhe trouxe paz.

Perdi o gás. Não sei onde reside o mal e não sei explicar a minha perplexidade agnóstica. Insisto em procurar o lugar onde reside o mal e sei que não se encontra no interior de uma pessoa. Estará no interior de muitas pessoas? Será o mal fruto de uma vontade humana perversa?

Para Hannah Arendt, o mal estava precisamente na ausência de vontade humana. Tão banal quanto isso.

E se virarmos isto de pernas para o ar e procurarmos o bem? Responderíamos às duas questões, assumindo como razoável que um estará na ausência do outro.

Mas responderíamos alguma vez?

Um abraço,

Marta

I wanna hurry home to you

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Queridas Senhoras,

hoje apetece-me contar-vos uma história antiga. Enfim, tem uns aninhos, aconteceu em Agosto de 2007. Foi assim que o conheci.

Pressenti-o muito antes de o ver. Dirigira-me àquela loja para estar rodeada de coisas bonitas, de coisas que me despertassem a atenção, mas ele despertou-me a atenção muito antes de o ver. Tão bonito.
Dizia-me, à medida que eu me aproximava dele, “vem dançar comigo”, e eu respondia-lhe, a medo, “dançar contigo, aqui?”, e ele continuava, “dança comigo, tu queres dançar comigo, não queres?”, e eu respondia-lhe, envergonhada, “sim, quero, mas eu mal te conheço…”, e ele retorquia, “então fica aqui comigo, dança comigo e já ficarás a conhecer-me um pouco melhor”, mas eu não fui capaz, “não sou capaz”, e ele sussurrou-me ao ouvido, “então leva-me contigo, leva-me para casa e poderemos dançar juntos sempre que quisermos”.
Ainda hesitei. Dei duas ou três voltas à loja mas acabava sempre por voltar ali. Pensei, “a última vez que levei um estranho para casa também o conheci numa loja igual a esta, também me convidou para dançar, e a verdade é que nunca me arrependi de ter decidido comprar o Tigermilk dos Belle & Sebastian…”
Agarrei no Boxer dos The National e fui a correr para casa.

I wanna hurry home to you
put on a slow, dumb show for you
and crack you up
so you can put a blue ribbon on my brain
god I’m very, very frightening
I’ll overdo it

Bom fim-de-semana

Marta

Pilar da ponte de tédio

MSC

Queridas Senhoras,

hoje Mário de Sá-Carneiro atravessou-se no meu caminho várias vezes e eu não podia ignorar os sinais. Vocês sabem, as ligações.

Há praticamente um ano, a Tinta da China publicou o livro Em Ouro e Alma: Correspondência com Fernando Pessoa, uma edição-crítica organizada por Ricardo Vasconcelos e Jerónimo Pizarro. Agora, a editora anuncia o lançamento de um site dedicado a Mário de Sá-Carneiro, cuja génese esteve em todo o material que passou pelas mãos dos organizadores do livro mas que acabou por ficar de fora das suas páginas.

Este site incide sobretudo na correspondência do escritor e tem a particularidade de ser bilingue (português e inglês), para chegar a mais públicos. Eu perco-me com correspondência entre escritores, é o meu pecado.

No entanto, há já um ano que está online outro recurso muito rico para aprofundarmos o nosso conhecimento sobre a obra (vasta, para quem viveu apenas 26 anos) deste atormentado e doce homem a quem faltou sempre um pouco mais. A Biblioteca Nacional faculta-nos a consulta do espólio do escritor, numa colecção de obras digitalizadas que já incluía Eça, Sophia, Pessoa e Saramago, entre outros. Convido-vos a mergulhar naquele paraíso de manuscritos.

Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.

Estas palavras, que me perseguiram em determinadas fases da minha vida, foram cantadas por Adriana Calcanhoto no ábum Público, de 2000, e assim dadas a conhecer aos muitos milhares de brasileiros que compraram o disco e, também, a muitos portugueses. Hoje a Univerdade de Coimbra noticia que receberá a cantautora entre fevereiro e julho de 2017 numa residência artística que prevê aulas abertas, ateliers, conferências e exposições.

Por altura do álbum Público, li uma entrevista de Adriana Calcanhoto em que esta descrevia o seu processo criativo. Aprendi muito naquelas linhas sobre a arte da depuração. Por causa disso, comprei o cd. E desde então que tenho um fraquinho por ela (como se diz nos EUA, uma girl crush).

Será que consigo infiltrar-me na UC? Fiquem atentas aos próximos episódios!

Beijinhos,

Marta

Lenha para a fogueira

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Queridas Senhoras,

hoje passámos a manhã na ‘Escola Primária’ (é engraçado como a expressão se recusa a desaparecer). Foi o primeiro dia de aulas do Francisco, que continua a ver o seu Jardim de Infância através das grades, mas que agora sente outro tipo de responsabilidade. Não sei onde é que ele foi buscar as preocupações que tem manifestado nos últimos tempos.

- E se tiver má nota?

- E se eu não tiver espaço na cabeça para tudo?

- E se os outros miúdos gozarem comigo por eu ser pequenino?

- Se eu tiver má nota no primeiro dia a culpa não é minha, pois não, ainda não tive tempo para aprender…

Aos poucos, tenho tentado desconstruir estes monstros assustadores, relativizando e simplificando, mas sempre desejosa de que comece o raio da escola de uma vez por todas, porque tenho a certeza de que mal ele perceba o que é que ali se vai passar vai relaxar. Não sei de onde vêm estas assombrações – sei que não nasceram nem em minha casa nem em casa do pai, isso é certo. São coisas que ele ouve por aí. Felizmente, fala delas connosco. Espero que seja sempre assim.

Mas cá entre nós, enquanto eu o tento tranquilizar, confesso que lido com os meus próprios monstros. A minha ‘primária’ correspondeu a um período muito conturbado da minha infância e, provavelmente por isso, tenho muito poucas memórias claras desse tempo, meia-dúzia de pormenores, apenas. Por isso, cá entre nós, confesso que deposito alguma esperança redentora no que aí vem. Que eu possa restaurar um pouco a minha infância através do Francisco. Será pedir demais? Provavelmente.

Para ele, desejo muita amizade e muita curiosidade. E a coisa dá-se.

Abraço a todas,

Marta