Lenha para a fogueira

por , em 15/9/16

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Queridas Senhoras,

hoje passámos a manhã na ‘Escola Primária’ (é engraçado como a expressão se recusa a desaparecer). Foi o primeiro dia de aulas do Francisco, que continua a ver o seu Jardim de Infância através das grades, mas que agora sente outro tipo de responsabilidade. Não sei onde é que ele foi buscar as preocupações que tem manifestado nos últimos tempos.

- E se tiver má nota?

- E se eu não tiver espaço na cabeça para tudo?

- E se os outros miúdos gozarem comigo por eu ser pequenino?

- Se eu tiver má nota no primeiro dia a culpa não é minha, pois não, ainda não tive tempo para aprender…

Aos poucos, tenho tentado desconstruir estes monstros assustadores, relativizando e simplificando, mas sempre desejosa de que comece o raio da escola de uma vez por todas, porque tenho a certeza de que mal ele perceba o que é que ali se vai passar vai relaxar. Não sei de onde vêm estas assombrações – sei que não nasceram nem em minha casa nem em casa do pai, isso é certo. São coisas que ele ouve por aí. Felizmente, fala delas connosco. Espero que seja sempre assim.

Mas cá entre nós, enquanto eu o tento tranquilizar, confesso que lido com os meus próprios monstros. A minha ‘primária’ correspondeu a um período muito conturbado da minha infância e, provavelmente por isso, tenho muito poucas memórias claras desse tempo, meia-dúzia de pormenores, apenas. Por isso, cá entre nós, confesso que deposito alguma esperança redentora no que aí vem. Que eu possa restaurar um pouco a minha infância através do Francisco. Será pedir demais? Provavelmente.

Para ele, desejo muita amizade e muita curiosidade. E a coisa dá-se.

Abraço a todas,

Marta

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Queridas Senhoras,

estou viciada em Shetland.

I’m hooked as well. It’s a damn good yarn, a gripping detective story, on top of the mood, the wildness. The beautiful landscape and all that. I wonder what the tourist board thinks of it. Visit Shetland, for its haunting nature, brooding skies, empty beaches, plentiful recreational drugs. On the downside they (the drugs) may kill you. And if they don’t, someone else almost certainly will. – Sam Walloston, The Guardian

Não sabia nada sobre estas ilhas escocesas antes do passado fim-de-semana. Mas bastou um relance daquela paisagem hostilmente magnífica para perceber que este seria o meu destino nos próximos tempos, uma vez por semana, sem sair do sofá.

Vocês sabem. Nevoeiro, portos piscatórios, mar, desolação e obstinação. Os ingredientes essenciais do meu postal ilustrado preferido.

Em Shetland, escrito (sobretudo) pela premiada Ann Cleeves, que também assina a série Vera, encontramos o detective Jimmy Perez, que se mudara para Glasgow mas decidiu regressar a casa após enviuvar. Com ele vive a filha, ou melhor, a enteada, que é, na verdade, mais sua filha do que do pai biológico. Esse chama-se Duncan, é amigo de Jimmy, também vive nas Shetland e recupera agora um pouco da ligação perdida com a filha, após tê-la abandonado, e à mãe dela, há muitos, muitos anos.

A acompanhar Perez, a jovem detective Alison McIntosh, acabadinha de não casar e frequentemente de ressaca, e o agente-aspirante-a-detective Sandy Wilson, que descobre a avó assassinada a tiro de caçadeira logo no primeiro episódio.

Esta série vem agora juntar-se a Vera, Endeavour, Inspector George Gently e Midsomer Murders no meu leque de preferências. Mas Shetland (tal como Vera) tem a particularidade de passar-se na actualidade. E eu não posso deixar de sentir-me espantada (e esperançada) por verificar que, na era do Facebook, ainda há lugares onde se vive assim. É que ali nada parece seguro, nem o chão nem o céu nem o mar em volta de tudo; mas há tempo suficiente para se ter cuidado com o sítio onde se colocam os pés, passo após passo.

Não percam, no Fox Crime.

Beijinhos,

Marta

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A sorte

por , em 6/7/16

Uma pessoa podia enlouquecer de tanto olhar o filho que dorme e pensar a sorte, a sorte, a sorte que foi termos nascido aqui e não lá.

E de não saber o que mais pode fazer para além disso.

Beijos, que estejam bem.

Marta

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Man Ray, Woman With Long Hair, 1929

Queridas Senhoras,

estão todas convidadas para uma magnífica festa no pátio das miúdas loiras. Devo dizer-vos que eu ando a espreitar pelo buraco da fechadura há uns 16 anos, por isso sintam-se devidamente privilegiadas por terem a porta escancarada com tamanha facilidade.

Foi há 16 anos, mais coisa, menos coisa, que me apaixonei pelo pátio das miúdas loiras. Foi o Jeff Buckley que mo apresentou, reparem, é natural que me tenha tocado. Para mim, o pátio era, então, um lugar de despedida sob o sol, bem no meio de um álbum póstumo, Sketches for My Sweetheart the Drunk (1998), depois de o Mississipi se ter apropriado tão indevidamente da vida do mais belo dos cantores. Tanto que eu cantei este pátio.

No final do ano passado descobri o Micah P. Hinson. Decorem este nome (não se preocupem se não conseguirem, eu voltarei a ele muitas mais vezes, seguramente). Até recebi um cd dele, já não recebia um cd há tanto tempo que me apetece emoldurá-lo.

Através do Spotify fui conhecendo os seus trabalhos anteriores e percebi que participou no álbum Dream Brother: The Songs of Tim and Jeff Buckley (2006). Com que canção, perguntam vocês? Com o pátio, pois claro:

Reparem: eu ouço muita música e depois ouço a minha música. Já não admitia novos membros da galeria dos ‘meus’ há longuíssimos tempos. E, assim do nada, o Micah dá-me esta prova de que estava certa em relação a ele. Estas coisas emocionam-me, não consigo evitá-lo.

Os dados estavam lançados: eu tinha que saber tudo o que é possível saber-se sobre esta canção.

E eis que chego a Inger Lorre.

Esta é a história: Inger foi namorada de Jeff Buckley. Quando Audrey Clark e Lori Kramer compuseram esta canção em homenagem a uma amiga que se havia suicidado, Inger pediu-lhes boleia e acrescentou o seguinte trecho à letra original:

It’s in your heart
It’s in your art, your beauty
Even in this world of lies
There’s purity
You’ve got innocence
In your eyes
Even in this world of lies

You’re still hopeful
Very sexy, okay, okay

O trecho era, como decerto já adivinharam, dedicado ao rapaz Buckley. Mas ele, apesar de ter interpretado maravilhosamente a canção, nunca chegou a saber disso.

Bem-vindas ao pátio, Senhoras. Let the party begin!

Beijos,

Marta, a investigadora solene das coisas fúteis
(que bem que me fica esta assinatura de Álvaro de Campos)

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Cobardia maternal

por , em 20/10/15

memória
Queridas Senhoras,
não me orgulho deste momento. Hoje, pela primeira vez, o Francisco viu de relance a tristemente célebre imagem da criança síria morta à beira-mar.

- Mãe, que horror, olha o bebé…
- Não é um bebé, filho, é um boneco.
- Um boneco?
- Sim, um boneco que algum menino perdeu na praia.
- Oh, coitadinho do menino!

Que me perdoem Aylan e a sua família; que me perdoem todos os que sofreram e sofrem em busca de paz. Eu, cobardemente, reagi por instinto, querendo proteger o meu filho daquela dose brutal de realidade. Do conforto do meu sofá.

Tento sempre dizer-lhe a verdade. Tenho que tentar melhor.

Abraços,
Marta

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«Para onde vai a dor?» Joel Neto, O Arquipélago

Querido Joel (as Senhoras que me desculpem, mas isto é uma carta aberta),

li o teu Arquipélago em fins de Maio, inícios de Junho. De uma ponta à outra, roubando horas à estafa da mudança de casa, ao sono, à dor.

«No primeiro dia do ano de mil novecentos e oitenta, desabara afinal mais do que o véu que cobria a miséria de cada casa. Em vinte segundos apenas, desabara tudo o que aqueles homens e aquelas mulheres haviam construído durante séculos. Desabara a intimidade, mais do que o segredo. (…) E ele sem sentir a terra que tremia.» Joel Neto, O Arquipélago.

Mudar de casa foi duro, física e emocionalmente. Deixa-me fazer aqui uma pausa para uma citação que não tua (desculpa, Joel, eu sou intrinsecamente incapaz de pensar sem citar, se existe alguma coisa que possa impedir-me de escrever ficção é, seguramente, esta imposição constante dos arquivos da memória e da curiosidade):

«Soneto para construir janelas

Erguer, antes de tudo, uma parede –
a parede no caso é importantíssima,
pois as janelas só existem sobre
paredes, as janelas sobre nada

são também nada e não são sequer vistas.
Em seguida, quebrá-la até fazer
nela um grande buraco, não maior
que a parede, pois precisamos vê-la,

nem menor que seus braços – as janelas
sobre as quais não se pode debruçar
não são janelas, são buracos. Pronto.

Ou quase: agora basta construir
um mundo do outro lado da parede,
para que possas vê-lo, emoldurado.» Gregorio Duvivier

Dizia que foi duro. Foi. Sobretudo, nesta parte de construir um mundo e emoldurá-lo. Mas fi-lo, dos dois lados da parede, «E a terra que tremia ainda nos olhos das pessoas, sem que José Artur pudesse senti-la.» (esta também é tua, Joel)

Há uma frase habitualmente atribuída ao escritor C.S. Lewis, mas que, na verdade, foi o pai de um aluno dele que disse, que sustenta que nós lemos para sabermos que não estamos sozinhos. Eu soube que não estava sozinha ao ler o teu livro durante uma fase tremendamente solitária da minha vida.

«O que sustenta um interior não é somente a compressão de vigas e argamassa. O ar expirado, as brasas na lareira, a pele ruborizada, ou pela cólera ou pela indecência, humores e gases, tudo aquece e dá conforto às coisas construídas. Por isso é que, no extremo da ruína, ainda o tecto alberga a sua gente, curvado e carcomido, como as mãos de um velho a defender a descendência, conforme pode, até cair também.» Hélia Correia, Lillias Fraser.

Hoje tenho uma nova vida emoldurada nas janelas da minha nova casa e, embora continue sem conseguir ouvir o som da destruição, isso já não é demasiado importante, uma vez que creio ter aprendido tudo o que havia para aprender com este terramoto. As leituras, os risos, os copos de vinho, as manhãs estremunhadas e as tarefas domésticas aquecem e dão conforto a esta coisa nova que construí, não inteiramente sozinha, mas com a ajuda, sobretudo, do Francisco, que aos cinco anos de idade já é uma das minhas principais fontes de inspiração e consolo; também dos amigos, os que estão perto, os que estão longe mas, oh, tão perto; e dos livros, que me ajudam a lembrar-me de quem eu sou.

Eu sou um arquipélago em constante mutação, mesmo que nem sempre consiga ouvir os terramotos e as erupções que me transformam. Não o seremos todos?

Obrigada, Joel.

Um beijo,
Marta

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Questionário ‘Ter 40′