Segunda-feira, 11 Julho 2016

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Queridas Senhoras,

Deusas em Fúria é um filme de raparigas e a sinopse tem semelhanças com a de uma dessas comédias dramáticas ligeiras, de catarse feminina (ou masculina): um grupo de amigas junta-se para uma espécie de despedida de solteira em casa da noiva, em Goa (a casa do pai, já agora, que faz questão de manter o ambiente português, é referido às tantas). Para além desta premissa, outra coisa que torna o filme ligeiro é o facto haver muitas cenas tipo videoclip: amigas a dançar, amigas a chapinhar à beira-mar em contraluz, amigas a passear de jipe, de braços no ar, amigas no SPA, amigas a comer, a beber e a brindar. Raparigas como nós.

A diferença está na história de cada uma delas, oriundas de várias cidades da Índia, e representantes da mulher moderna numa sociedade que tem sérias dificuldades em lidar com a emancipação feminina, onde a subjugação da mulher está tão enraizada que a violação, mais do que tolerada, parece ser legitimada (a estatística citada é a de uma violação a cada vinte minutos).

Frieda, a noiva, é fotógrafa de moda. Há a empresária de sucesso, a actriz que luta contra os estereótipos de Bollywood, a cantora de bar à procura do próximo sucesso, a esposa perfeita que quer o divórcio, a actvista revolucionária, a empregada doméstica que não se submete. Para completar o ramalhete, ainda temos uma avó centenária que entra em cavalarias com as raparigas e, na outra ponta, uma menina de seis anos que anda por ali a documentar tudo com o iPhone da mãe.

Todas e cada uma destas mulheres se revoltam contra uma sociedade patriarcal, machista e misógina, que idolatra as deusas mas espezinha as mulheres. Curioso é que os pequenos detalhes com que o filme abre, mostrando as situações de misoginia que cada uma vive, podiam acontecer aqui mesmo. É o piropo porco no ginásio, é o realizador no set de filmagens que pede mais abanar de ancas e de rabo, é o ataque verbal no meio na rua, é a humilhação em contexto profissional. Mais tarde, todas serão apontadas pela polícia por beberem na praia em trajes impróprios, ou seja, calções e t-shirt.

Deusas em Fúria é um filme com o qual facilmente nos identificamos, não tanto pelo girl-bonding como pelo ataque à condição feminina.

Beijinhos a todas,

Céu

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