Quinta-feira, 6 Outubro 2016

por

1346932154-f

Queridas Senhoras,

em meados de Agosto escrevi aqui sobre alguns dos títulos da colecção que o jornal Expresso lançou ao longo do Verão, Obra Essencial de Camilo Castelo Branco. Li entretanto os três volumes restantes – O que fazem as mulheres, Retrato de Ricardina e Vinte horas de liteira. Embora sejam todos leitura mais do que recomendada, julgo que o último merece uma referência especial pelo que a seguir se expõe.

Vinte horas de liteira devia ser dado na escola (será que é?). Mas não só: deveria ser prescrito em casos de fastio da leitura, de padecimentos do foro do desinteresse literário, de enfermidades causadoras do desamor aos livros. Uma espécie de antidepressivo para males de linguagem. É tal o prazer que se desprende destas páginas, tão saborosa a prosa, tão ritmado o andamento, que o paciente há-de por força arrebitar.

O que temos aqui? Uma viagem de vinte horas de Vila Real ao Porto embalada por quase igual número de histórias, narradas por um tal António Joaquim. Homem providencial este, que dá boleia ao autor, no lugar perdido de Ovelhinha, povoado nos fraguedos do Marão, fazendo-o embarcar na liteira, vetusto meio de transporte, e num desfiar de romances, ou esqueletos de romances, que mais do que entreter a jornada, hão-de maravilhar o autor e todos quantos subam a bordo.

Uma figura, este António Joaquim, um poço de virtudes, surpresas e sensibilidade. De bom senso está igualmente bem provido. António Joaquim é o marido, o pai, o filho, o irmão, o amigo que todos gostaríamos de ter. Confiável e confiante, dirá, no remate do livro: “Não consinto que se minta em meu nome!”

Fiquem sabendo, pois, que a mentira e a manipulação não terão aqui margem de manobra. António Joaquim descobre-se narrador exímio fazendo uso, somente, de casos e histórias que viveu, conheceu de perto, por via familiar ou de vizinhança. O rol de contos quase sai a pedido. Há histórias com dinheiro e sem dinheiro, sentimentais, de religiosos, de enjeitados, de tesouros escondidos, de viúvas e órfãos, de famílias desavindas e amores reencontrados.

A viagem de liteira deu um livro. Devia ser dado na escola. Alguém me sabe dizer se é??

Beijinhos a todas,

Céu

Tags:

· · · ◊ ◊ ◊ · · ·

Deixe o seu comentário

Questionário ‘Ter 40′